- Pela Redação
- 29/05/2023
A carteira de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Digimais, instituição financeira vinculada ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, experimentou uma expansão extraordinária nos últimos oito anos. Os números saltaram de R$ 694 milhões em 2017 para R$ 8,5 bilhões em 2025, representando um crescimento de 1.130%.
Este aumento acelerado, financiado através de remunerações que chegaram a patamares de até 140% do CDI para captar investidores, tornou-se alvo central da investigação que levou a Polícia Federal a deflagrar a Operação Miragem na terça-feira (23 de junho). A operação investiga suspeitas de gestão fraudulenta, falsificação de dados contábeis e realização de operações de crédito em desconformidade com as normas regulatórias.
Os mandados de busca e apreensão foram acompanhados por decisões judiciais que autorizaram a quebra de sigilos fiscais envolvendo 18 alvos da operação, além do bloqueio de bens pessoais do bispo Edir Macedo. Conforme indicado nas investigações, o Digimais teria instrumentalizado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como um mecanismo de cobertura para operações fraudulentas, seguindo padrões similares aos observados no caso do Banco Master, conduzido por Daniel Vorcaro.
A estratégia investigada evidencia uma transferência proposital de riscos financeiros. Segundo os relatórios da Polícia Federal, a instituição captava montantes significativos do público investidor para manter uma operação em déficit, repassando as perdas finais para o sistema de proteção institucional do FGC. Esta dinâmica revelou-se insustentável do ponto de vista patrimonial, dependendo essencialmente da expectativa de cobertura garantida pelo fundo de proteção.
Documentação analisada pelos investigadores evidencia que o crescimento no volume de captações não possuía fundamentação na capacidade patrimonial real da instituição emissora. A estratégia de gestão teria utilizado a garantia coletiva do FGC para captar liquidez, ocultando o passivo descapitalizado e canalizando o risco operacional para todo o sistema financeiro nacional.
Para atrair investidores em meio ao deterioramento de sua situação financeira, o banco elevou progressivamente suas ofertas de remuneração. Durante 2025, o custo médio de captação através de plataformas de distribuição atingiu 115,7% do CDI. Paralelamente, alguns títulos foram comercializados com rentabilidade superior a 140% do CDI, configurando uma estratégia agressiva de atração de recursos.
Enquanto expandia seu volume de captações e recebia bilhões de reais de investidores, o Digimais divulgava lucros que agora são questionados pelos investigadores como potencialmente fictícios ou manipulados. A instituição financeira mantinha parcerias com seis grandes players do mercado para distribuição de seus CDBs, incluindo XP Investimentos, BTG Pactual, Nu Invest, Itaú Corretora, Inter e Ágora, ampliando significativamente seu alcance junto ao público investidor.
As evidências reunidas pela Polícia Federal indicam um esquema sistêmico de fraude que envolveu a manipulação de demonstrativos contábeis, a realização de operações de crédito vedadas pela legislação e a utilização indevida da garantia institucional para sustentar uma operação inherentemente insolvável.
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