- Pela Redação
- 29/05/2023
Redação
Poucos momentos fazem o Brasil se reconhecer como uma única nação e um só povo tanto quanto a Copa do Mundo e o Carnaval.
Em ano eleitoral, essa percepção soa menos como exagero e mais como uma provocação necessária.
A esquerda e a direita se entrincheiram. Famílias se dividem, amizades se desgastam e o debate público, muitas vezes, transforma adversários em inimigos.
Mas basta a seleção entrar em campo.
E algo extraordinário acontece.
Por noventa minutos, estabelece-se um armistício. O empresário abraça o operário no pátio da empresa na hora do gol. O conservador comemora com o progressista. O Sul vibra com o Nordeste, num só coração.
O gol transforma-se em êxtase. Em catarse coletiva. Por alguns instantes, parece que só ele pode nos salvar.
A camisa da seleção volta a ser apenas a camisa do Brasil.
Não por acaso, o futebol foi incorporado aos projetos de construção da identidade nacional.
Sob Getúlio Vargas, nas décadas de 1930 e 1940, o rádio transformou a seleção em símbolo de unidade. Décadas depois, durante o regime militar, a Copa de 1970 foi associada ao discurso oficial de um país vencedor. Milhões cantavam: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração…”, numa das mais fortes associações entre futebol e política da história brasileira.
Nenhum governo criou a paixão pelo futebol.
Mas todos compreenderam seu poder.
Essa percepção ganhou profundidade na obra Carnavais, Malandros e Heróis, do antropólogo Roberto DaMatta. Para ele, o futebol e o carnaval são rituais capazes de suspender temporariamente as divisões sociais e fazer o Brasil experimentar algo raro: a sensação de ser uma comunidade.
Nem mesmo a polarização recente conseguiu destruir completamente esse sentimento.
Na Copa de 2022, pela primeira vez em décadas, a camisa canarinho foi alvo de disputa política. Muitos passaram a enxergá-la não apenas como símbolo esportivo, mas também ideológico. Houve discussões, desconfortos e a sensação de que a velha unanimidade estava ameaçada.
Mas ela não desapareceu.
Quando a bola rolou, milhões de brasileiros continuaram sofrendo, vibrando e chorando juntos.
E é justamente aí que reside o paradoxo.
Se somos capazes de nos unir diante de uma bola rolando, por que fracassamos em fazê-lo diante dos problemas reais?
O Brasil não desconhece a união.
Ele a experimenta repetidas vezes.
Talvez tenha sido isso que Nelson Rodrigues enxergou ao chamar a seleção de A Pátria em Chuteiras. O brasileiro não assistia apenas a um jogo; procurava nele uma redenção. A pátria veste chuteiras, entra em campo e nos faz acreditar, mais uma vez, que somos um só povo.
O Brasil sabe ser uma nação. A tragédia é que ainda não aprendeu a permanecer sendo depois do apito final.
Suelme Fernandes Historiador do IHGMT e presidente da EMPAER MT
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