- Pela Redação
- 29/05/2023
A ação da Polícia Federal contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), deflagrada nesta quinta-feira (18/6), provocou apreensão entre membros da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O senador baiano é investigado por suspeita de envolvimento em fraudes do Banco Master.
Integrantes da equipe de campanha do petista temem que a investigação se transforme em munição política contra o governo, comprometendo um dos principais pilares da comunicação de Lula: associar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provável adversário presidencial, a suspeitas relacionadas ao Banco Master.
Setores do governo defendem que seja mantida uma posição de afastamento institucional em relação a Jaques Wagner, sem abandoná-lo completamente. A estratégia inclui reforçar princípios como o direito ao devido processo legal e a presunção de inocência, além de estimular o aprofundamento das investigações.
Nos corredores do PT, porém, há avaliação de que a operação reacende o "fantasma do Master" dentro da sigla. A campanha de Lula vinha utilizando o caso para desacreditar Flávio Bolsonaro, especialmente após a divulgação de áudios em que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro solicitava recursos a Daniel Vorcaro para financiar um documentário em homenagem ao pai.
Coordenadores da estratégia de reeleição de Lula avaliam que as campanhas publicitárias contra a família Bolsonaro perderam impacto, e que ataques similares agora poderão ser utilizados por Flávio contra o governo. Contudo, dois dirigentes consultados pelo Metrópoles defendem que é necessário aguardar o desenvolvimento da operação e preservar a estratégia de desgaste contra o senador fluminense.
O temor do desgaste político é amplificado pela proximidade entre Jaques Wagner e Lula, bem como pela importância histórica do senador baiano no PT. Como um dos fundadores da sigla, ele é visto como um dos aliados mais confiáveis do presidente e uma das raras lideranças que conseguem confrontá-lo nos bastidores.
A força dessa relação ficou evidente em 2018, quando Lula, encarcerado e impedido de concorrer à Presidência, considerou Jaques como um potencial sucessor na corrida ao Planalto. O senador recusou o convite e, em seguida, coordenou a campanha de Fernando Haddad (PT), escolhido para representar a legenda naquele ano.
Wagner também ocupou posições cruciais nos governos Lula e Dilma Rousseff. Seu papel mais destacado foi como articulador político do governo em 2005, período crítico da crise do Mensalão. Ex-governador baiano por dois mandatos, o senador pretende concorrer à reeleição este ano. Observadores avaliam que a candidatura pode sofrer efeitos negativos em decorrência da ação da PF.
Segundo interlocutores ouvidos, o presidente Lula deve adotar cautela em relação a Jaques. Alguns membros do governo sugerem que Wagner deixe a liderança do Senado para encerrar a crise, proposta que o senador negou categoricamente.
Há também preocupação nos bastidores petistas de que o avanço das investigações alcance Rui Costa (PT), ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil. Durante sua administração no estado, expandiram-se as operações de crédito consignado ligadas ao Master. Assim como Jaques Wagner, Rui Costa é pré-candidato ao Senado em 2026.
A operação contra Jaques Wagner foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, o magistrado menciona suspeitas de que o senador tenha recebido "vantagens econômicas" em troca de influenciar decisões do Congresso em benefício do Banco Master.
Conforme a investigação, essas "vantagens" incluem um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador e transferências totalizando R$ 3,5 milhões para pessoas próximas ao senador. Os investigadores apontam Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, como o principal intermediário entre Jaques Wagner e a instituição financeira.
Ferreira Lima é acusado de ter estruturado operações de crédito consignado que impulsionaram o crescimento do Banco Master.
Documentos encaminhados pela instituição ao Banco Central demonstram que a expansão ocorreu por meio do Credcesta, um tipo de cartão consignado criado na Bahia durante administrações petistas, que ganhou volume significativo após a entrada de Augusto Lima nas operações.
Em entrevista à BandNews TV, Jaques Wagner negou qualquer ligação com Vorcaro e afastou a possibilidade de ter atuado em favor do Banco Master no Congresso. O senador declarou nunca ter recebido "recursos de pessoa alguma, em particular do Master ou de Augusto Lima".
Comunicado oficial do gabinete de Jaques afirma que o senador "acompanha com serenidade o desenvolvimento das investigações e mantém a confiança nas autoridades responsáveis".
"Jaques Wagner ratifica que permanece integralmente à disposição das autoridades para fornecer explicações complementares, com a segurança de que a verdade se imporá", diz a manifestação divulgada.
Pablo Domingues, advogado que representa o senador, argumentou ao Metrópoles que os documentos "conseguidos por meio da busca poderiam ser obtidos através de procedimentos menos invasivos".
"Infelizmente, a tática se reproduz em período eleitoral, empregando exatamente as mesmas técnicas da operação de busca e apreensão realizada em 2018", disse Domingues, referindo-se à ação anterior contra Jaques sobre suspeitas de recebimento de propinas na reforma da Arena Fonte Nova.
"O processo penal não pode servir como instrumento de humilhação pública. Os desvios e excessos necessitam ser investigados e seus responsáveis sancionados", completou o advogado.
Por comunicados oficiais, diferentes instâncias do PT manifestaram apoio ao senador Jaques Wagner. O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, afirmou em nota que Jaques é "portador de toda a nossa confiança".
"Apoiamos toda investigação envolvendo o Banco Master, pois a coletividade merece conhecer a verdade. Os ilícitos perpetrados devem ser esclarecidos e aqueles responsabilizados devidamente", escreveu Edinho.
O diretório estadual do PT na Bahia igualmente expressou solidariedade ao parlamentar e reafirmou ter "total e absoluta confiança nas condutas do senador". A organização apontou que Jaques Wagner foi "injustamente acusado diversas vezes e nunca apresentou qualquer conduta questionável".
"O desenrolar das apurações demonstrará novamente que Wagner nunca participou de qualquer ato ou conduta desconforme à legalidade", declarou a cúpula baiana do partido.
A bancada do PT no Senado também divulgou comunicado de apoio ao líder do governo. Os senadores manifestaram ter "total confiança" na trajetória de Jaques Wagner, apoiaram a continuidade das investigações e asseguraram que o parlamentar "apresentará, no curso das apurações, a propriedade de seus atos diante dos elementos investigados".
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