Apatia Eleitoral Deixa 108 Milhões de Brasileiros sem Representação Política

Historiador Leonardo Trevisan analisa como crise do STF ofusca eleições e gera descrença na classe C



O eleitorado brasileiro mergulhou em um estado de desinteresse crescente pelas disputas eleitorais após uma década marcada por desilusões políticas. Leonardo Trevisan, historiador e docente de Relações Internacionais na ESPM, aponta que faltam duas semanas para o pleito, mas pouco se discute sobre os números das urnas na sociedade.

"Os eleitores estão tão desengajados que os magistrados do Supremo Tribunal Federal tomaram todo o espaço do debate público", afirmou durante sua participação no programa WW Especial.

Nas semanas recentes, a turbulência institucional no STF dominou as conversas em Brasília e em todo o Brasil. Trocas de acusações entre ministros, publicação de mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro (antigo proprietário do Banco Master) e as tensões crescentes que delas resultam deslocaram as eleições para segundo plano.

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Conforme levantamento realizado pela Quaest, a desconfiança dos brasileiros na Corte aumentou dez pontos percentuais em período recente.

Comportamento similar ocorre nas mídias sociais, onde a maioria dos usuários expressa críticas contundentes aos magistrados. Segundo análise de Renato Dolci, colunista do programa, com base em 8,9 milhões de postagens, esse movimento de rejeição ganhou dimensões expressivas.

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"Vivenciamos uma realidade de patrimonialismo desenfreado, onde observamos transferências absurdas de recursos: 500 mil para descendentes de juízes, 300 mil para filhos de outros magistrados, 3 milhões destinados à esposa de outro servidor público. A lei perdeu sua força normativa", critica Trevisan. "O ordenamento jurídico não encontra respeito prático."

Essa conjuntura alimenta um sentimento generalizado de falta de representatividade política. Trevisan sustenta que uma parcela significativa de votantes encontra obstáculos em sua tentativa de estabelecer conexão com a realidade política do país.

O especialista evoca pesquisa do presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, revelando que 108 milhões de brasileiros da classe C vivenciaram momentos de esperança no início dos anos 2000, mas posteriormente enfrentaram desapontamento com o sistema político.

"Esses 108 milhões de brasileiros anseiam por representação genuína. Existe uma lacuna crítica de representatividade. Eles não se veem refletidos na estrutura política. Experimentaram esse sentimento, mas perderam a esperança", explica Trevisan.

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O otimismo dessa população emergiu do Plano Real, expandiu-se com políticas de transferência de renda do Bolsa Família e com oferta ampliada de crédito ao consumidor. Porém, a turbulência econômica de 2014 inverteu essa tendência, provocando frustração massiva. As plataformas digitais aceleraram essa transformação, modificando comportamentos de compra e padrões laborais das diferentes camadas sociais.

A informatização disseminou-se por todo o território nacional nos últimos vinte anos. Segundo o IBGE, 95% dos lares brasileiros possuem conexão com a internet. Apenas as redes sociais consomem 12 horas e 19 minutos semanais de tempo de tela dos usuários, enquanto plataformas de streaming de audiovisual absorvem 11 horas e 28 minutos.

"Presenciamos uma explosão do universo digital para a qual a sociedade ainda não encontrou respostas adequadas", comenta Trevisan.

Enfim, o cenário atual apresenta ecos perturbadores de períodos históricos já vividos. "Este momento carrega marcas profundas dos anos 1930. Não apenas pelo ressurgimento de movimentos extremistas em diversas regiões globais, mas por fatores muito mais estruturais", conclui.

WW Especial

Conduzido por William Waack, o programa é transmitido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

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* com informações de Giovana Christ, da CNN Brasil em São Paulo

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