Congresso conservador e crise fiscal podem prejudicar governabilidade no próximo mandato de Lula

Análise aponta desafios econômicos e legislativos para eventual quarto mandato presidencial



Um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará obstáculos significativos de governabilidade. A composição mais conservadora do Congresso, aliada aos desafios fiscais e à necessidade de recuperar credibilidade junto aos agentes econômicos, são fatores determinantes. Essa é a avaliação de Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, apresentada durante o WW Talks, plataforma de debate promovida pela CNN Brasil em parceria com a Galapagos Capital e a Eurasia.

Conforme Garman, o êxito da agenda presidencial dependerá diretamente das propostas formuladas e da disposição em atacar questões estruturais das finanças públicas. Mesmo diante de um Legislativo mais conservador, o analista acredita ser viável aprovar reformas fiscais, desde que exista consenso sobre a urgência de controlar despesas obrigatórias e criar condições para redução de taxas de juros.

"Se o presidente Lula assumir em meio a uma crise de confiança e com preços de ativos em queda, e se entrar no quarto mandato convicto de que é preciso endereçar o gasto obrigatório para possibilitar ao Banco Central reduzir juros, mesmo com um Congresso conservador, acredito que existiria abertura para avançar nessa direção", afirmou o analista.

Garman ressaltou que colaboradores da administração Lula reconhecem a urgência de combater juros elevados e implementar ajustes fiscais. Na sua visão, a divergência reside na magnitude das transformações necessárias, não na compreensão de que ajustes nas contas públicas são imprescindíveis.

"Quando você conversa com assessores do presidente Lula, eles admitem estar cientes da crise gerada pelos juros altos. Também reconhecem que alguma reorganização das finanças públicas é essencial. A diferença está na escala do diagnóstico, mas existe pelo menos um consenso sobre a necessidade de agir nessa direção", complementou.

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Na perspectiva de Garman, uma reforma fiscal que reformule as regras de despesas obrigatórias, em consonância com as propostas da atual equipe econômica, poderia contar com respaldo congressional. Contudo, o grande desafio seria executar essas medidas em um contexto econômico adverso, cenário que ele projeta para 2027.

"Se Lula iniciar com alguma reforma fiscal alterando as regras do gasto obrigatório, conforme a equipe econômica atual tem proposto, acredito que haveria condições para aprovar uma medida desse escopo", destacou o diretor.

O analista também abordou a conexão entre a percepção popular sobre questões econômicas e a aprovação presidencial. De seu ponto de vista, mesmo com indicadores favoráveis em emprego e renda, uma sensação persistente de estagnação pode comprometer a avaliação governamental se não houver recuperação sólida nas perspectivas econômicas.

"A aprovação do presidente Lula está em 45%, com desemprego a 5,3%, renda real cresceu 19% em três anos, e ainda assim existe um senso profundo de estagnação. Se você não gera um choque de credibilidade capaz de reduzir juros, a probabilidade é elevada de que a aprovação do presidente caia em 2027, já que não fez o necessário para esse choque de credibilidade", declarou Garman.

Para o especialista, as dificuldades de governabilidade não apareceriam necessariamente no período inicial de um eventual novo mandato. O risco verdadeiro emergiria posteriormente, quando a popularidade presidencial recuasse e o governo tivesse de negociar com um Legislativo menos cooperativo, simultaneamente adotando medidas econômicas paliativas que aprofundariam as dificuldades fiscais.

"A dificuldade de governabilidade não viria no primeiro semestre do ano seguinte ou no ponto de partida, mas quando a aprovação do presidente caísse frente a um Congresso hostil e um presidente tomando, possivelmente, medidas paliativas na política econômica que intensificam os problemas fiscais. Esse é o verdadeiro perigo, porém não representa uma ameaça imediata", concluiu.

Sobre o WW Talks

O WW Talks é uma série de debates mensais realizada pela CNN Brasil em conjunto com a Galapagos Capital e o grupo Eurasia. A iniciativa tem por objetivo aprofundar a análise de eventos que marcam o Brasil e o cenário internacional, congregando visões distintas sobre os elementos que orientam decisões políticas e econômicas de atores locais e globais.

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