- Pela Redação
- 29/05/2023
Quando o expediente encerra na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, enquanto funcionários e parlamentares finalizam seu dia de labuta, educandos e mestres principiam uma trajetória inédita dentro das salas da Secretaria de Escola e Memória do Legislativo. Cercados por cadernos, material didático e possibilidades de aprendizado, adolescentes e cidadãos adultos retomam uma jornada educacional que, por motivos variados, precisou ser interrompida.
Neste espaço funciona o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), resultado de colaboração entre a Assembleia Legislativa mato-grossense e a Secretaria de Estado de Educação. Em 15 de outubro, data dedicada aos mestres educadores, o projeto destaca narrativas de profissionais e discentes marcadas por dedicação, aprendizagem contínua e novos começos.
Iniciado em 2023, o programa já alcançou sua quarta turma, tendo acolhido 161 alunos no período. Das três primeiras turmas, 103 completaram a formação: 50 em 2023, 32 em 2024 e 21 em 2025. A turma atual congrega 37 estudantes com conclusão programada para dezembro. Conforme registros da Instituição, próximo de 90% dos matriculados completam o percurso formativo.
O conceito nasceu quando a profissional Telma Campos, psicopedagoga, ingressou na Secretaria de Escola e Memória do Legislativo e constatou que havia colaboradores sem conclusão do ensino médio. A partir dessa percepção, a Casa de Leis providenciou mecanismos para que tais indivíduos regressassem aos estudos.
Progressivamente, o programa transcendeu os ambientes da instituição e alcançou a população geral. Em 2023, dentre os 58 inscritos, 15 eram colaboradores da ALMT e 43 originários da comunidade. Em 2024, houve dez colaboradores e 28 cidadãos da localidade; em 2025, cinco colaboradores e 23 externos. Atualmente, dos 37 inscritos, apenas um pertence ao quadro da Assembleia e 36 integram a comunidade.
Dentre os discentes encontra-se Larissa Nascimento Sampaio, babá de 22 anos. Estimulada pela progenitora, que igualmente não finalizou seus estudos, ela determinou regressar para concretizar aspiração: ingressar em instituição superior e conquistar carreira profissional.
"Minha genitora sempre me impulsionou e atualmente é meu principal motivo. Desejo trazer esse reconhecimento para ela. Meu maior objetivo, após finalizar o ensino médio, é acessar uma universidade. Reconheço que concluir a formação é o começo dessa jornada", declara.
Larissa compartilha que experimentava desconfiança ao observar colegas avançando para a educação superior enquanto permanecia com formação incompleta. Todavia, dentro da sala encontrou nos mestres motivação para recuperar segurança. "Frequentemente imaginava que não era suficiente. Num dia, uma professora apreciou minhas tarefas e aquele reconhecimento me permitiu compreender que verdadeiramente posso. Os mestres motivam genuinamente e oportunizam que cada indivíduo reconheça sua capacidade", reflete.
A discente Abadia Gonçalves Medeiros Silva, com 52 anos, relata ter retomado estudos após prolongado período desacreditando-se. "O EJA ultrapassa instituição escolar, representa acolhida genuína. Os mestres viabilizam confiança, mesmo diante de obstáculos. Retomar estudos trouxe-me novamente esperança de prosseguir e conceber possibilidades", sublinha.
Desde o estabelecimento do projeto, 17 mestres já atuaram neste programa. Presentemente, quatro educadores trabalham nas disciplinas de Ciências da Natureza, Matemática, Ciências Humanas e Linguagens, todos pertencentes à rede estatal de instrução.
Para a docente Soely Maria de Meira, instruir aqueles que retornam após hiato prolongado configura-se como vivência de troca mútua. Segundo sua perspectiva, os aprendizes carregam conhecimentos adquiridos no núcleo familiar, ambiente ocupacional e meio social.
"Trazem experiências e saberes consolidados durante trajetória. Poder colaborar nesta nova etapa, intermediar materialização de sonhos e recomposição de segurança representa vivência enriquecedora", expressa.
A educadora Antônia Lúcia de Queiroz Tenório concebe que a atuação no EJA transcende dimensões puramente acadêmicas. Para ela, educar esses estudantes implica em partilhar processo de recuperação de dignidade e participação social.
"Atuar no EJA vai além de transmitir conteúdos negligenciados, significa acolher pessoas que, através de trajetórias desafiadoras, afastaram-se da educação formal. Presenciar indivíduos com 60, 70 ou até 80 anos frequentando sala de aula demonstra que sede de aprender e transformar jamais perece. Cada dia representa conquista contra limitações temporais e marginalização", ressalva.
Dentre narrativas significativas de sua experiência está a de Sebastião, operário da construção com mais de 60 anos que chegou sem dominar leitura. Seu intento era singelo porém profundo: conseguir ler textos sagrados no templo religioso e reconhecer autonomamente identificações em transportes públicos.
Mediante acompanhamento sistemático, atividades complementares e suporte pedagógico, Sebastião iniciou seu processo alfabetizador. Antônia evoca o instante em que ele conseguiu ler autonomamente pequeno trecho diante de seus colegas. "Emocionou-se, toda turma aplaudiu. Posteriormente, transformou-se sua atitude, sua forma de deslocar-se e expressar-se. Conquistou empoderamento pessoal", rememora.
Conforme relata Antônia, experiências similares igualmente modificam aquele que ocupa o espaço docente. "Ensinam-me todas as noites verdadeira significação da palavra perseverança. Demonstram que instrução configura direito indispensável e que reiniciar nunca é intempestivo", afirma.
Para as mestras Soely e Antônia, aquilo que justifica permanência em sala de aula é acompanhar independência conquistada pelos aprendizes a cada novo conhecimento. "É observar seus olhares iluminarem-se ao compreenderem inovação, reconhecer que aquela instrução incrementa segurança pessoal, possibilita leitura de letreiros, textos religiosos, documentações ocupacionais ou assistência aos netos em aprendizados. A essência autêntica de educar é transformar existências", destaca Antônia.
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