- Pela Redação
- 29/05/2023
Investigada pela Polícia Federal sob suspeita de tráfico de influência, a empresária Roberta Luchsinger afirma que solicitou apoio do ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sua proposta sobre fornecimento de canabidiol ao governo, mas enfatiza que não realizou pagamentos em troca desse apoio.
Roberta é alvo de três inquéritos da Polícia Federal ao lado de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A investigação apura se atuaram para beneficiar empresas junto a órgãos federais. Até agora, as investigações não indicam se algum contrato foi assinado com o poder público.
Um dos inquéritos examina comunicações de Roberta com Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, a respeito de uma proposta de fornecimento de canabidiol para o Ministério da Saúde.
A Polícia Federal constatou que Roberta quitou contas de Marcola e agora investiga se os pagamentos representavam compensação por favores prestados. O ex-chefe de gabinete afirmou que os valores - R$ 249 mil - constituem um empréstimo pessoal já devolvido.
"Ter apoio [era o objetivo das conversas com Marcola]. Talvez erro meu de pedir apoio. Ingenuidade. Bobeira", declarou Roberta ao g1 por mensagem nesta quinta-feira (27), em sua primeira manifestação após as investigações virem à tona.
"Não fiz pagamentos ao Marcola. Eu ajudei um amigo. Óbvio, eu deveria ter sido atenta ao fato de ser ele chefe de gabinete do presidente. Mas é covardia 'linkar' uma coisa na outra. Marcola é meu amigo. Eu sou uma pessoa amiga dos meus amigos. Se eu sei que precisam e posso ajudar, eu ajudo", complementou.
Conforme a investigação da Polícia Federal, Roberta encaminhou a Marcola por WhatsApp, em maio de 2024, a minuta de um Termo de Referência que estabelecia critérios para o Ministério da Saúde adquirir frascos de canabidiol.
O documento previa a dispensa de licitação e direcionava o negócio para a empresa World Cannabis, vinculada ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, denominado Careca do INSS. A minuta foi desenvolvida pela equipe do Careca. Nenhum contrato com o ministério foi celebrado.
De acordo com Roberta, existe uma lacuna regulatória no setor de canabidiol que tem exposto pacientes a produtos importados sem controle de qualidade adequado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo sua versão, a minuta que ela enviou a Marcola continha proposições para resolver esse problema.
"A principal mudança descrita no documento é administrativa e operacional: sair de sucessivas aquisições vinculadas às demandas individuais para uma estrutura de planejamento e aquisição centralizada [pelo Ministério da Saúde] de uma demanda judicial já existente e recorrente", explicou.
"Diante de tema tão importante, e por não haver nenhuma relação de compra e venda — até porque são demandas judicializadas —, eu gostaria sim de ter tido apoio, olhos postos sobre o tema", prosseguiu.
"Antônio [Careca] contratou uma equipe muito competente [na World Cannabis], inclusive pessoas que foram funcionárias da Anvisa e que, após saírem, prestam serviços de consultoria altamente especializada", afirmou Roberta.
Desde que seu nome foi envolvido em suspeitas, em dezembro de 2025, Roberta e sua assessoria jurídica negam que ela tenha feito transferências a Lulinha com objetivo de que ele abrisse portas do Ministério da Saúde para produtos do Careca do INSS.
"Antes de haver busca e apreensão na minha casa, eu já havia manifestado que eu não tinha ideia de nada de INSS e que minha relação com Antônio [Careca] era canabidiol. Eu fui a primeira a falar. Porque não vejo crime nenhum nisso", declarou.
Roberta atuava como intermediária em favor dos negócios da empresa do Careca. Ela recebeu dele R$ 1,5 milhão para prospectar oportunidades junto ao Ministério da Saúde. Roberta sustenta que ignorava que o Careca desviava recursos de aposentadorias.
Em correspondências interceptadas pela Polícia Federal, Roberta mencionou uma parceria com Lulinha. Questionada sobre o tipo de parceria, ela respondeu que são amigos e que já cogitaram "a intenção" de realizar empreendimentos conjuntos.
"Eu e Fábio somos amigos. Muito amigos. Renata, esposa dele, [é] minha melhor amiga. Já tivemos intenção de fazermos coisas juntos fora do âmbito público, porém, sabemos que qualquer coisa que ele faça sempre será mal vista. Fábio é meu amigo antes de o pai ser presidente", assegurou.
Quando questionada sobre fornecimento de vantagens a Lulinha, como custear deslocamentos, Roberta respondeu simplesmente que "tudo [está] muito fora de contexto".
Em entrevista à TV Globo nesta quinta-feira (27), Lula manifestou que o filho terá que se defender como qualquer cidadão caso tenha incorrido em alguma ilicitude. Questionado sobre mensagens creditadas a Roberta e ao filho, o presidente declarou: "o que uma pilantra pode fazer num telefone ou o que um cara qualquer pode fazer num telefone?".
Segundo integrantes do PT, Roberta se aproximou do partido e de Lulinha a partir de 2017, quando Lula enfrentava processos na Operação Lava Jato.
Em 2018, quando Lula foi encarcerado, o vínculo dela com Lulinha se fortaleceu. Naquele mesmo ano, Roberta concorreu a deputada estadual pelo PT em São Paulo, mas não logrou êxito nas urnas.
"Eu poderia ter falado: 'Fábio, mostra aí para seu pai essa questão do canabidiol, como o Brasil está atrasado. Ele é meu amigo, eu poderia ter pedido. Nunca pedi. Porque, como amiga, sei que, primeiro, ele não faria, e segundo, é algo muito técnico", afirmou.
Roberta também argumentou que suas mensagens com Lulinha estão sendo "distorcidas, picotadas". Por isso, seu advogado Roberto Podval requereu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão do sigilo das investigações e a divulgação das conversas integrais.
Roberta e Lulinha são alvo de três inquéritos no STF pelos alegados crimes de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. São eles:
O ministro do STF André Mendonça conduz os dois primeiros inquéritos. O ministro Flávio Dino, o terceiro.
0 Comentários
Faça um comentário