Quem é você na fila do pão? Por Gabriel Novis Neves

Artigo



Redação 

Entrei na fila sem pressa. 

 

Havia poucas pessoas à minha frente. 

 

Mesmo assim, o atendimento parecia demorado. 

 

Observei os rostos, os gestos, os suspiros discretos. 

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas. 

 

Nem sempre é o tamanho da fila que nos inquieta — é o tempo dentro de nós. 

 

Quando eu era jovem enfrentei muitas filas. 

 

Fila para a escola, para o recreio, para a missa, para a agência do Banco do Brasil, para assistir às partidas de futebol, para o cinema. 

 

Acabei me acostumando com as filas, a ponto de sentir certa falta delas. 

 

As tecnologias modernas reduziram muitas dessas esperas. 

 

O laptop resolveu parte dos problemas. 

 

Eu, que sou da geração pré-internet, hoje resolvo boa parte dessas filas pelo celular, computador ou até televisão. 

 

Filas inevitáveis ainda existem: as dos aeroportos ou as dos benefícios do INSS. 

 

São locais ideais para tirar uma pequena soneca, mesmo sendo atendimento preferencial.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre o que nos incomoda é o tamanho da fila, mas o tempo dentro de nós. 

 

É quando o cérebro mede o tempo de maneira diferente e reclama que a fila anda devagar. 

 

Como o ser humano é difícil de entender! 

 

As filas faziam parte do cenário das cidades. 

 

Quando morei no Rio de Janeiro, conheci novas filas: a do pão, a do bonde, a do restaurante universitário. 

 

Fila para escolher um lugar perto das ondas do mar, apenas para bronzear. 

 

Fila para pegar o bondinho da Praia Vermelha até o Morro da Urca e o Pão de Açúcar. 

 

Fila para admirar as belezas da baia da Guanabara. 

 

Também, imitando os paulistanos, filas para assistir ao pouso e à decolagem das aeronaves no Aeroporto Santos Dumont, ainda antes da chegada dos jatos. 

 

O Presidente JK tinha um moderníssimo Avro. 

 

Essas são as filas que ficaram guardadas na minha memória. 

 

Hoje entendo melhor: às vezes a fila não anda devagar — é o nosso tempo interior que caminha mais depressa. 

 

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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