- Pela Redação
- 29/05/2023
Documentos divulgados pela Polícia Federal revelam uma relação próxima entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A situação está no centro de uma crise institucional de grandes proporções que afeta a Corte nos últimos tempos.
A liberação dos registros ocorreu por decisão do ministro André Mendonça em primeiro de fevereiro, com base em dados extraídos do aparelho celular de Vorcaro.
Entre os conteúdos revelados pelos relatórios policiais, constam correspondências do ex-banqueiro direcionadas a um telefone atribuído ao ministro, além de contratos de valores substanciais entre o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, pertencente à família do magistrado.

Escritório confirma voos de Moraes em avião de empresa ligada a Vorcaro

Vídeo mostra Moraes e esposa em jatinho de Daniel Vorcaro, diz jornal

Oposição cobra afastamento de Gonet após foto com Vorcaro
Conheça os principais detalhes do caso:
Mendonça retirou sigilo sobre a ação que investiga a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes. Um relatório produzido pela PF expõe conversas nas quais o ex-banqueiro solicitava ao magistrado que intermediasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para desacelerar as investigações sobre a instituição financeira.
Diante das informações, Mendonça solicitou à Procuradoria-Geral da República esclarecimentos sobre o assunto.
Com a liberação do sigilo, as presumidas conversas entre Vorcaro e Moraes tornaram-se públicas. A instituição policial documentou não menos de 52 mensagens entre dezembro de 2023 e novembro de 2025.
O documento reúne mensagens remetidas por Vorcaro a um número salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA". As respostas do magistrado não figuram no material disponibilizado.
As apurações indicam que o ex-banqueiro utilizava a funcionalidade de mensagem efêmera e, em alguns momentos, redigia nas anotações do aparelho, capturava a tela e compartilhava como imagens pelo WhatsApp. A PF informou ter recuperado parcialmente esse material através de arquivos e registros presentes no dispositivo.
Em uma das correspondências que gerou grande repercussão, Vorcaro teria consultado Moraes sobre a possibilidade de deixar o país dias antes de sua prisão.
Em comunicação enviada em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou ao magistrado: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Sequencialmente, questionou a respeito de um juiz identificado como Ricardo, indagou se Gabriel Galípolo, então presidente do Banco Central, estava inteirado da situação e se haveria possibilidade de agir de alguma forma.
No dia seguinte, um dia antes de ser detido, Vorcaro voltou a contatar o ministro e indagou: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?".
Na noite de 17 de novembro daquele ano, instantes antes de ser capturado, o ex-banqueiro enviou outro texto ao magistrado. "To indo assinar com os investidores de fora e estou online", escreveu, comunicando que se deslocava para uma viagem internacional.
O então proprietário do Banco Master foi detido preventivamente pouco depois. Na manhã subsequente, a PF iniciou a primeira etapa da Operação Compliance Zero e o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
Além das trocas de mensagens, a investigação registrou ao menos seis encontros presenciais entre os dois, ocorridos entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025. A cronologia dos fatos foi estabelecida conforme o material obtido pela polícia.
Conforme os arquivos, o primeiro contato foi viabilizado ainda em 2023 pelo ex-ministro das Comunicações no governo anterior, Fábio Faria, que repassou a Vorcaro o número de telefone de Moraes.
Em 2 de fevereiro de 2024, segundo as mensagens examinadas, ocorreu um jantar entre Moraes e Vorcaro, com a participação das respectivas esposas. Em novembro de 2024, múltiplos outros encontros foram realizados.
Em março de 2025, Vorcaro comunicou à esposa que estava em companhia de Moraes e, posteriormente, relatou a mesma informação a um executivo do Banco Central. Em abril de 2025, ele mencionou que compareceria a um encontro com Moraes "perto de casa".
O derradeiro encontro registrado nas mensagens contidas no material da investigação sucedeu em 8 de agosto de 2025.
Vorcaro informou à então namorada que não teria condições de viajar por estar acompanhando Moraes e que, em seguida, possuía um agendamento com alguém identificado apenas como "Ciro".
Os relatórios policiais revelam também que o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, cônjuge do ministro Alexandre de Moraes, assinou um contrato superior a R$ 130 milhões com o Banco Master.
O acordo celebrado estabelecia uma compensação mensal de R$ 3,6 milhões durante período de três anos, compreendendo 2024 a 2027. Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro do ano anterior, os repasses foram suspensos.
Após a publicação do material, o escritório de Viviane confirmou que Moraes teve acesso ao contrato.
Em comunicado à imprensa, o Barci de Moraes afirmou que seu departamento de compliance, "como realiza em outros casos similares", solicitou informações ao magistrado "na qualidade de esposo da sócia-diretora do referido escritório, sobre a possível existência de impedimentos legais para a celebração nos moldes sugeridos no esboço contratual, tais como ações no STF sob sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do potencial cliente".
Segundo relatório policial, os metadados do arquivo do documento, compartilhado a Vorcaro via WhatsApp, indicam ter sido modificado por um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes".
De acordo com o escritório, o magistrado examinou o documento e verificou ausência de qualquer obstáculo para a assinatura.
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", consta no posicionamento do escritório.
Informações da Secretaria da Receita Federal repassadas à CPI do Crime Organizado em abril demonstram que o escritório obteve R$ 80,2 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. Os repasses foram identificados pela comissão mediante a declaração de Imposto de Renda da instituição comandada por Vorcaro. À ocasião, o escritório não confirmou as informações e alegou que eram "incorretas e vazadas ilicitamente".
Anteriormente, em março, o escritório de advocacia informou ter confeccionado 36 pareceres jurídicos e assessoramentos legais para o banco. Conforme comunicado, o trabalho incluiu a contratação de outros três escritórios como parceiros e a realização de 79 reuniões na sede da Master, além de dois encontros por videochamada.
Vídeo divulgado pelo jornal O Globo no fim de semana mostrou Moraes e a esposa, Viviane de Moraes, utilizando uma aeronave vinculada a Vorcaro em 22 de agosto de 2025.
O desembarque, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, foi capturado em vídeo obtido pelo veículo jornalístico.
À imprensa, o escritório Barci de Moraes alegou que contrata serviços de transporte aéreo executivo e que a Prime Aviation integra as empresas utilizadas.
"Em nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório compareceu Daniel Vorcaro ou qualquer pessoa exterior ao escritório", declara.
A aeronave, um Legacy 650, era propriedade de uma corporação de Vorcaro, conforme a investigação policial.
O deslocamento aéreo ocorreu após negociações do escritório de Viviane para um contrato adicional com organizações de Vorcaro.
De acordo com a PF, o escritório de Viviane celebrou um contrato adicional de prestação de consultoria jurídica no montante de até R$ 50 milhões com a Viking Participações, corporação representada por Vorcaro.
O acordo foi formalizado em 12 de maio de 2025 e contemplava três anos de prestação de serviços. As atividades incluíram assessoria legal, participação em procedimentos administrativos, monitoramento de apurações e representação em litigâncias.
Uma semana depois, em 19 de maio, a Viking e o escritório celebraram um termo para definir o pagamento dos R$ 50 milhões. Desse montante, R$ 40 milhões seriam satisfeitos com participações em duas corporações vinculadas a aeronaves.
Uma dessas corporações possuía um avião Legacy 650. A outra encontrava-se em fase de aquisição de um helicóptero Airbus EC 155 B1.
Conjuntamente, os dois acordos preconizavam até R$ 158 milhões em remunerações.
Conforme divulgado, o contrato com o escritório da esposa de Moraes era considerado prioritário por Vorcaro. Em uma das correspondências reveladas pela PF, o ex-banqueiro afirma que o pagamento ao escritório não poderia "atrasar um dia" e era considerado "o mais importante".
Moraes e o escritório negam a existência desse segundo acordo.
A instabilidade que compromete a Suprema Corte se intensificou após a liberação do sigilo do material policial que compreende as correspondências de Vorcaro supostamente dirigidas a Moraes.
Após a publicação do material, Moraes acusou Mendonça, através do inquérito das fake news, de negligência administrativa e excesso de autoridade, solicitando investigação contra o magistrado. O presidente da Corte, Edson Fachin, manifestou que a resolução à crise institucional será "firme, adequada e severa", e concedeu cinco dias para Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei se expressarem sobre a situação.
Na última terça-feira (15), os magistrados realizaram uma sessão para examinar o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.
O julgamento transcorreu em cenário de tensão na Corte, com troca de ofícios entre ministros, disputas pelo acesso às provas e questionamentos acerca da gestão das apurações realizadas pelo ministro André Mendonça.
A sessão foi caracterizada por embates e trocas de recriminações. Naquele momento, o magistrado Flávio Dino solicitou prazo e suspendeu a votação, cujo resultado parcial é de 4 a 3 para manter separada a análise dos procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça relativos às investigações do caso Master.
Na última quinta-feira (17), Fachin deliberou adiar a análise do processo que examinaria a conduta de André Mendonça. O julgamento estava agendado para a próxima quarta-feira (23), porém será remarcado "oportunamente", segundo comunicado oficial do presidente do Tribunal.
A tensão também envolve o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, apontados como suspeitos de atuar para limitar o avanço das apurações sobre o banco.
Uma imagem divulgada pelo jornal O Globo e confirmada pela imprensa neste sábado (19) mostra o PGR ao lado de Vorcaro durante festividade em Londres.
Na fotografia, Gonet aparece segurando um charuto e sorrindo, acompanhado por mais dois indivíduos e cercado por recipientes com bebidas alcoólicas. O material foi obtido do aparelho do ex-banqueiro pela instituição policial.
0 Comentários
Faça um comentário