Bancos Centrais Reduzem Aposta no Dólar e Aumentam Investimentos em Ouro

Pesquisa global revela primeira vez que BCs planejam vender dólares mais do que comprar, refletindo instabilidade geopolítica.



Pela primeira vez em sua história, mais bancos centrais ao redor do mundo pretendem reduzir suas posições em dólar americano do que ampliá-las durante a próxima década, conforme revelado por pesquisa internacional. O movimento reflete as crescentes preocupações com os riscos políticos associados à moeda norte-americana.

O levantamento foi realizado pelo OMFIF (Official Monetary and Financial Institutions Forum), organização independente de pesquisa sediada em Londres, entre março e maio, e contou com participação de 74 instituições centrais globais. Trata-se da primeira vez que o indicador registra maior disposição para desfazer alocações em dólar em comparação com a intenção de aumentá-las desde o início do monitoramento em 2023.

A tendência ocorre em contexto de incerteza geopolítica elevada, incluindo conflitos no Oriente Médio e perspectivas de novas medidas protecionistas dos Estados Unidos sob a gestão do presidente Donald Trump, fatores que contribuem para aumentar a percepção de imprevisibilidade na política internacional americana.

Este movimento faz parte de um fenômeno mais amplo conhecido como desdolarização, que envolve a diminuição da circulação e demanda pela moeda americana em transações comerciais internacionais e operações financeiras. A participação do dólar nas reservas cambiais dos bancos centrais atingiu seu menor patamar em vinte anos durante o período analisado, conforme dados do JPMorgan.

Segundo análise do OMFIF, fatores geopolíticos superaram considerações puramente políticas domésticas como principal motor de afastamento dos investimentos em dólar. O relatório destaca que "a geopolítica superou o ambiente político americano em 2024, refletindo o papel percebido dos EUA no incremento dos riscos geopolíticos mundiais".

Apesar dessa reconfiguração, a hegemonia do dólar permanece inconteste. A moeda norte-americana continua representando aproximadamente 58% das alocações de reservas dos bancos centrais, proporção que se mantém estável há cinco anos. Conforme explicado à CNN pela chefe de pesquisa do OMFIF, Andrea Correa, espera-se que o dólar mantenha sua posição dominante no médio prazo.

Contudo, uma desdolarização gradual já está em andamento, com instituições migrando recursos para alternativas como o euro e o renminbi chinês. A moeda europeia ganhou atratividade entre os bancos centrais: dois terços dos entrevistados agora consideram o euro mais atraente para operações comerciais internacionais, comparado a 43% no ano anterior. Aproximadamente 29% dos respondentes manifestaram intenção de ampliar reservas em euro no longo prazo, ante 22% no levantamento prévio.

O renminbi também desperta interesse crescente, com praticamente todos os bancos centrais consultados reconhecendo seu potencial como instrumento de diversificação de portfólio. Paralelamente, moedas de economias emergentes como o dólar de Singapura, o won coreano e o rand sul-africano ganham espaço nas estratégias de alocação.

Impulsionados pelas incertezas geopolíticas, os bancos centrais estão intensificando significativamente sua demanda por ouro. Uma proporção recorde dessas instituições sinalizou planos de aumentar suas posições no metal precioso, movimento que ocorre mesmo diante de apreciação superior a 20% no período anual anterior. Cerca de 51% dos bancos centrais mencionaram proteção contra riscos geopolíticos como razão para a compra de ouro, representando aumento de 11 pontos percentuais em relação a 2024.

O ouro consolidou-se como elemento central nas estratégias contemporâneas de administração de reservas de ativos governamentais. Conforme o relatório do OMFIF, essa reorientação reflete "proteção contra riscos geopolíticos e dúvidas crescentes sobre a estabilidade do sistema monetário internacional". Analistas apontam que o metal precioso passou a ocupar posição de destaque nas considerações estratégicas das autoridades monetárias mundiais.

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