- Pela Redação
- 29/05/2023
Júlio Campos
Pela primeira vez em minha atuação parlamentar apresentei uma Moção de Repúdio. Sensibilizado pela sistemática eliminação de cristãos, que o novo governo sírio mantém em curso e que nos últimos dias resultou na execução de mais de 1.500 católicos, apresentei a referida Moção no dia 19, e pedi que a mesma seja encaminhada à Embaixada Síria, em Brasília.
Não é concebível o que ocorre na Síria, que acaba de sair de uma guerra civil que arrastou-se por 13 anos e cujo saldo de mortos somente será conhecido nos próximos anos, quando todas as cicatrizes do conflito se cicatrizarem, ainda que permaneçam na alma dos sobreviventes.
O novo governo de Damasco, liderado por Ahmed al-Sharaa, tem que impedir a verdadeira limpeza religiosa, que se compara ao que fez Adolf Hitler no campo racial. A Moção tem o sentido de alertar a Síria, que Mato Grosso - onde ao longo de décadas, milhares e milhares de sírios encontraram lar e estão perfeitamente integrados ao conjunto social, que são parte importante do mesmo - uma de suas principais lideranças repudia o cenário naquela nação amiga.
A limpeza religiosa na Síria preocupa a todos, indistintamente, e sobretudo a nós católicos e aos demais cristãos. A população síria, de 23,5 milhões de habitantes é formada por 70% de muçulmanos sunitas, 13% de muçulmanos xiitas, e os 17% restantes são representados por cristãos ortodoxos gregos, ortodoxos siríacos, maronitas, católicos sírios, católicos apostólicos romanos e católicos gregos, além de outros credos.
O mundo não pode permanecer calado ao extermínio sistemático em nome de credos e de denominações religiosas. É exatamente este o meu posicionamento por meio desta Moção. Sou católico apostólico romano praticante e convivo em harmonia com os fiéis de todos os credos, quer sejam ou não cristãos. Assim tem que ser a relação entre os cidadãos em nome do respeito à pluralidade ecumênica.
Vivemos em Mato Grosso, que nos dá permanentes exemplos do sentido ecumênico. A maior igreja em Cuiabá é o Grande Templo da Assembleia de Deus; a sede mais destacada de uma seita religiosa é a Mesquita Muçulmana; o prédio religioso com maior representação histórica é a bicentenária Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Somos um povo predominantemente cristão em perfeita harmonia com todas as crenças, dogmas e ritos. Na prática aprendemos com as lições de humanismo permanentemente ministradas pela Associação Espírita Wantuil de Freitas, de linha kardecista.
Nascemos, crescemos e vivemos em Mato Grosso ladeados por sírios, libaneses, jordanianos, palestinos e outros povos do Oriente Médio, em sua maioria muçulmanos. No convívio nos tornamos irmãos. Os árabes, persas e outros povos da região que a Síria integra, e que estão entre nós, certamente estão tristes e assustados com a limpeza religiosa em curso. Que nós cristãos nos juntemos a eles, em atos e orações, pelo fim da tragédia humana que fere a milenar história síria.
Independentemente da harmonia que sempre reinou em Mato Grosso, onde todos os povos e seus descendentes formam a população mato-grossense, espero que a Moção de Repúdio de minha autoria contra o novo governo sírio ecoe como sendo uma vez cristã, que se levanta num terra que verdadeiramente é uma extensão da Síria, pelo fim do extermínio dos católicos a mando de Damasco.
Júlio Campos é deputado estadual, vice-presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, ex-prefeito de Várzea Grande, ex-deputado federal, ex-deputado federal constituinte, ex-senador da república e governador de Mato Grosso
0 Comentários
Faça um comentário