O erro de uma, a sentença de todas: o tribunal machista ainda persiste! Por Andressa Suewellyn

Opinião



Redação 
 

Não é sobre um pênalti. Nunca foi. É sobre quem pode errar sem ter a própria existência colocada em julgamento.

A polêmica envolvendo uma assistente de arbitragem na partida entre Cuiabá e Operário, pelo Campeonato Mato-grossense, revelou um roteiro antigo e previsível. Um erro técnico, comum no futebol, foi suficiente para que o debate deixasse de ser sobre a regra do jogo e passasse a ser sobre o gênero de quem segurava a bandeira.

Quando homens erram, discute-se o lance.
Quando mulheres erram, questiona-se o direito de estar ali.

O que se seguiu nas redes sociais não foi crítica esportiva. Foi escárnio. Comentários sobre louça, balé e “lugar de mulher” não dizem nada sobre impedimento, mas dizem muito sobre quem se sente autorizado a expulsar mulheres de espaços públicos ao menor deslize. O erro virou pretexto. O alvo sempre foi o mesmo.

A exigência nunca é igual. Para mulheres, a régua é mais alta e o chão, mais instável. Elas chegam mais preparadas, são mais cobradas e, ainda assim, têm menos margem para falhar. Um único erro foi tratado como prova definitiva de incapacidade, como se toda uma trajetória profissional pudesse ser anulada em um lance.

Esse tribunal não se limita ao futebol. Ele opera na política, na saúde, na educação, na ciência e nas artes. Homens erram e seguem sendo indivíduos. Mulheres erram e passam a representar um suposto fracasso coletivo. O erro masculino é episódico. O feminino, imperdoável.

Quando a crítica abandona o campo profissional e assume a forma de humilhação pública, o objetivo deixa de ser correção e passa a ser controle. Deslegitimar mulheres em posições de visibilidade é uma estratégia antiga para lembrá-las de que sua presença é tolerada, nunca natural.

Questionar decisões faz parte do jogo. Questionar a legitimidade de alguém por ser mulher não é opinião. É violência simbólica. Não é liberdade de expressão. É manutenção de hierarquia.

Enquanto o erro tiver gênero, a igualdade continuará sendo apenas discurso. Dizer isso não é exagero nem vitimismo. É nomear um problema que insiste em se esconder atrás de piadas, memes e “brincadeiras”.

Mulheres não erram por serem mulheres. Erram porque são humanas. O resto é machismo tentando se disfarçar de crítica.

Andressa Suewellyn é jornalista 

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