- Pela Redação
- 29/05/2023
Redação
Quem não se lembra dessas palavras: boboca e jururu?
“Boboca” é a pessoa ingênua, o bobão que faz besteira ou é feito de besta. A gente usava o termo como uma forma de xingamento leve, quase carinhoso entre amigos. A palavra é usada no Brasil para deixar a ofensa mais “fofinha” e debochada ao mesmo tempo. Alguns dicionários dizem que a origem é incerta, possivelmente derivada de “bobo”, como uma variação regional brasileira. Não é xingamento pesado como “babaca” — esse sim tem outra história.
De origem banta, boboca é o bobo inofensivo, o ingênuo que se acha esperto e acaba se enrolando sozinho. Em Cuiabá e no interiorzão é muito usado assim: “Não seja boboca, rapaz!”.
“Jururu” é um adjetivo usado para citar aquela pessoa que anda cabisbaixa, tristinha, quieta num canto — que traduz a tristeza sem escândalo. Sua origem vem da língua tupi para indicar cabeça baixa, sem graça, pensativo. Sabe aquela situação em que a pessoa parece arrependida, de rabo entre as pernas depois que faz besteira? Pois é, é quando o boboca fica jururu. Geralmente é uma zoeira com um fundinho de dó, tipo: “Olha lá o boboca ficou jururu depois que levou um fora, levou uma bela bronca ou caiu no conto do vigário”.
Sabe quando o boboca fica jururu? Isso acontece quando ele entra em um lugar fazendo barulho, ocupa o espaço, pega o microfone, começa a falar alto e ri de si mesmo. Faz isso achando que o mundo é um plenário eterno. Só que repetir a mesma coisa no plenário cansa e falar para uma plateia vazia de concordância desgasta. É aí que a tal pessoa começa a ficar jururu.
Todo mundo já deve ter percebido que o boboca da vez, aquele que despachava soberano, tá ficando jururu bem diante dos nossos olhos. Está perdendo espaço no galinheiro e já não canta tão alto. O peito largo de pavão agora parece mais o de um pinto molhado. O riso largo virou sorriso amarelo, aquele de quem foi contar vantagem e voltou com a conta.
Antes ele berrava e o pátio aplaudia. Agora ele cochicha e nem o eco responde. Anda pelos corredores do poder como quem procura onde escondeu a própria sombra. De bravo a cabisbaixo. De valentão a cagão. De dono da festa a penetra que ninguém quer por perto.
Não tem cena mais jocosa e reveladora que um bobo, de repente, se perceber sem graça. Aí é que a frase do título deste artigo se torna realista. É quando a união das duas palavras quase intraduzíveis se complementam de forma harmoniosa.
É por isso que a expressão “o boboca tá ficando jururu” funciona tão bem. Você pega o bobo que vivia de peito estufado e descreve exatamente o momento em que a boca fica aberta, o beiço cai, o pescoço pende e a voz falha. Não precisa de verbo forte. O som já faz o serviço: “boboca” é engraçado; “jururu” é arrastado e melancólico. Uma palavra ri da outra.
Volto a dizer que não podemos confundir boboca com babaca. Desta vez com indisfarçável ironia. “Babaca” é pesado, machuca, agride e serve para identificar alguém desagradável, egoísta, que desrespeita e oprime os outros. Eu, hein? Longe disso!!
Babaca não gente, boboca. Boboca é brincadeira, é diversão.
Em tempo:
Antigamente, quando uma menina não gostava das olhadelas de um paquerinha não correspondido, logo falava para as amigas: “Aquele boboca tá dando em cima de mim”. Hoje em dia, com o debate mais atento sobre limites e comportamentos, até as paqueras descartadas daquele antigo boboca ganharam outro peso, o de provável assédio.
Marcelo Portocarrero é engenheiro civil
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