Certezas que abandonei

GABRIEL NOVIS NEVES



Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo. Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

Hoje carrego mais perguntas do que respostas. Não considero isso fraqueza. É maturidade.

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida. Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

No início, perder certezas me causou abatimento. Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo. Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

Desde a Idade Média buscamos certezas. A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas. Crescem descobrindo que elas raramente existem.

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas. E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

Gabriel Novis Neves é médico e fundador da UFMT.

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