- Pela Redação
- 29/05/2023
Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.
Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas. Ao lado deles a vida parece menos pesada.
Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo.
Como é bom receber a visitas dos netos! Tudo parece reflorir.
Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto.
Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto.
Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades.
Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude. Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento.
Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica. O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica. Fica mais leve.
Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós. Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo.
E é bom que seja assim. O tempo não volta para trás.
O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos.
Nem todas as mudanças são boas. Algumas assustam. Outras encantam. Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas.
Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda. É como se a família ganhasse nova luz.
Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece.
Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio.
Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura.
Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva.
E agradeço. Porque a juventude que os netos nos devolvem não está no corpo. Está no coração. E o coração, quando ama, nunca envelhece.
Gabriel Novis Neves é médico e fundador da UFMT
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