- Pela Redação
- 29/05/2023
Redação
Com quatro décadas de batente no jornalismo político de Mato Grosso, vi de tudo um pouco neste estado. Acompanhei os tempos áureos do jornalismo impresso, quando o barulho das rotativas nas madrugadas antecipava as grandes viradas políticas e o cheiro de tinta nas bancas ditava o tom do debate público.
Vi campanhas inflamadas, comícios históricos nas Praças Alencastro e da República e ruas tomadas por bandeiras e carreatas que sacudiam a capital e o interior. No entanto, o cenário que se desenha diante dos nossos olhos no atual pleito eleitoral é absolutamente inédito. Vivenciamos, pela primeira vez na história recente, a “eleição do silêncio”.
Trata-se de uma disputa esquisita, travada sob um manto de aparente apatia popular. Não se percebe nas ruas aquele fervor característico dos anos anteriores. Os seis candidatos que postulam a vaga ao Palácio Paiaguás parecem caminhar em um terreno minado por um eleitorado arredio, que escuta muito, fala pouco e custa a se empolgar.
A falta de um franco favorito a esta altura do campeonato reflete esse desinteresse velado, ou talvez um desencanto profundo com a classe política tradicional, mantendo o quadro aberto e imprevisível.
Essa frieza se reflete claramente na paisagem urbana. Em pleitos passados, a frota de veículos do estado transformava-se em um verdadeiro outdoor ambulante. Hoje, os poucos carros adesivados que circulam exibem, em sua maioria, apenas material de candidatos às cadeiras proporcionais e ao Senado.
Os governáveis parecem ter perdido o protagonismo do vidro traseiro. E o diagnóstico não é exclusivo da disputa estadual: o quadro espelha perfeitamente a eleição para a Presidência da República, onde o ruído das redes sociais contrasta com o silêncio desconcertante do cotidiano do cidadão comum.
O paradoxo fica ainda mais evidente ao analisarmos o perfil do nosso estado. Mato Grosso consolida-se como um território eminentemente conservador, de direita e de forte alinhamento bolsonarista. Contudo, em vez de ver essa hegemonia ideológica traduzida em festa ou mobilização efusiva nas ruas, o que presenciamos é uma disputa polarizada de tom pragmático e cauteloso entre a direita (dividida em dois candidatos) e a esquerda.
O eleitor mato-grossense parece ter adotado a postura do observador atento: guarda seu voto em segredo, analisa a movimentação dos bastidores e deixa a resposta final para o silêncio das urnas.
(*) Flávio Garcia é jornalista em Mato Grosso, atualmente servidor da Assembleia Legislativa.
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