- Pela Redação
- 29/05/2023
Durante o Carnaval carioca, ocupar a posição de rainha de bateria pode representar um investimento significativo, mas nem sempre pelo motivo que muitos imaginam. Contrariamente ao que circula nos bastidores da festa, a maioria das escolas de samba do Rio de Janeiro não exige pagamento direto pelo cargo. Entretanto, isso não quer dizer que tudo seja gratuito: em várias agremiações, as próprias rainhas arcam com seus custos durante toda a preparação, incluindo a fantasia exibida na Marquês de Sapucaí. Como ocorre em outros aspectos do universo do samba, existem exceções em ambas as direções: instituições que cobram pelo posto e aquelas que financiam integralmente os gastos.
Até o último Carnaval, a Unidos da Tijuca permanecia como a única escola carioca que realizava cobrança direta pelo posto de rainha de bateria, adotando esse modelo há muito tempo. Contudo, a situação mudou significativamente. Desde a detenção do patrono Rogério de Andrade, a Mocidade Independente de Padre Miguel enfrenta desafios internos e começará a negociar também esse cargo como receita. O afastamento da primeira-dama abriu espaço para uma nova fonte de arrecadação para a agremiação. Rogério cumpre sentença em presídio federal, assim como o presidente Flávio da Silva Santos, conhecido como Pepé.
Para diversas escolas, manter uma rainha de bateria gera mais complicações que satisfação. O cargo não representa um quesito oficial na avaliação e, consequentemente, não soma pontos na apuração final. Apesar disso, sua importância transcende a dimensão técnica: uma celebridade liderando os ritmistas proporciona prestígio, cobertura midiática, visibilidade e, dependendo do arranjo, recursos financeiros. A presença de personalidades nessa função intensificou-se ao longo dos anos com artistas que elevaram o cargo a um dos mais procurados da avenida, como Monique Evans, Luma de Oliveira e Luiza Brunet. Desde então, definir quem estará à frente da bateria deixou de ser apenas uma questão interna e passou a envolver estratégias nos bastidores carnavalescos.

Do outro lado encontram-se escolas determinadas a investir suas reservas financeiras nas estrelas. Grande Rio e Beija-Flor custeiam completamente as despesas de suas rainhas, enquanto Viradouro também assumi o gasto com a indumentária. No Carnaval anterior, o Salgueiro fez idêntico, financiando a fantasia de Viviane Araújo, ícone da agremiação. A Imperatriz Leopoldinense adota procedimento divergente: a responsabilidade pela fantasia fica com quem a veste, já que a escola não se encarrega desse custo. Portanto, mesmo quando não há cobrança para postos privilegiados, atravessar a Sapucaí pode onerar consideravelmente o bolso individual.

É a Imperatriz Leopoldinense que auxilia a desmentir uma narrativa que circulou intensamente nos círculos do samba. Quando Rafa Kalimann atuava como musa da instituição, boatos frequentes afirmavam que a ex-participante do BBB teria realizado pagamento para conquistar a posição. Naquele contexto, Vinicius Drumond ocupava formalmente o cargo de vice-presidente executivo da Imperatriz, fato que reforçava as especulações. Todavia, essa versão não corresponde à realidade: Rafa não desembolsou valor algum para ser musa. O único gasto assumido pela atual companheira de Nattanzinho consistiu exatamente na própria fantasia de desfile.

Resumidamente, conquistar um cargo destacado no Carnaval fluminense não representa, via de regra, a necessidade de desembolsar dinheiro por uma presença garantida na avenida. Até o Carnaval recente, unicamente a Unidos da Tijuca cobrava explicitamente pelo cargo de rainha de bateria, mas a inserção da Mocidade nessa dinâmica evidencia como a função também pode ser compreendida como ferramenta de arrecadação. Enquanto determinadas escolas patrocinam parcial ou completamente as despesas de suas celebridades, outras transferem o ônus para quem deseja se destacar à frente dos ritmistas. O cargo de rainha talvez não influencie o resultado final na quarta de cinzas, porém, antes dessa data, propicia prestígio, visibilidade midiática, repercussão e, progressivamente, movimento financeiro.
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