- Pela Redação
- 29/05/2023
Uma experiência inovadora de formação em comunicação popular com foco em questões climáticas reúne jovens de comunidades tradicionais, assentamentos, acampamentos rurais e estudantes universitários, chegando ao encerramento em setembro em Mato Grosso. O Núcleo Clima em Rede (NumaRede), realizado pelo Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad), concluiu sua primeira turma com 18 comunicadores populares de diferentes territórios estaduais. Após meses de oficinas formativas, os jovens preparam-se para amplificar narrativas construídas coletivamente que refletem a realidade cotidiana de suas regiões.

Os relatos dos encontros presenciais revelam a profundidade das experiências compartilhadas. "Minha felicidade hoje é morar em uma casa que não alaga", "Não dá pra entender que isso não seja notícia em jornal algum!", "Vi a água do rio baixar desde que eu era criança e quase não dá mais pra ver", "Estou estudando na cidade, mas meu sonho é voltar para a minha comunidade e continuar lá", "Nunca imaginei que a vida em um acampamento fosse assim". Essas vozes demonstram como as realidades distintas se entrelaçam nos espaços de aprendizado coletivo.
O coletivo iniciou com nove integrantes e duplicou o número de participantes em poucos meses, resultado da parceria entre organizações filiadas ao Formad, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT-MT) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB-MT). Estas buscavam atender à demanda por formação política em comunicação e renovação de lideranças em seus territórios. Criado em 1992, o Formad conta com 35 entidades filiadas e tem investido crescentemente na comunicação como instrumento de valorização e visibilidade de povos e territórios.
O NumaRede recebe apoio da Misereor e financiamento do Instituto Clima e Sociedade (iCS), integrando o Eixo de Comunicação e Mobilização no fortalecimento de Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais na ação e governança climática. A metodologia utiliza a Educomunicação como eixo condutor, transcendendo capacitação técnica para construir formação política de jovens que desde a infância vivenciam ameaças e resistências em seus territórios, enquanto aprendem sobre ciclos de colheita, preservação das águas e saberes ancestrais que fundamentam suas histórias.
Bruna Pinheiro, jornalista do Formad e coordenadora do projeto, destaca que o planejamento priorizou a construção política dos jovens sobre técnicas comunicacionais. "A proposta é contribuir com a formação deles enquanto indivíduos capazes de compreender os impactos da crise climática e como afeta seus territórios, transformando isso em instrumento de luta, resistência e enfrentamento. Nem todos sairão comunicadores populares, mas certamente compreenderão o poder da comunicação para suas comunidades. Foi um processo de amadurecimento, partilha de experiências e muita troca".
Os últimos encontros presenciais ocorrem em setembro em Cuiabá (MT), nos dias 25 e 26, com evento aberto ao público. A programação apresentará trabalhos desenvolvidos pelas juventudes comunicadoras, combinando cultura, política, comunicação, música e artes. O local e horário serão divulgados em breve.
A primeira turma reúne 18 jovens provenientes de territórios da Amazônia, Cerrado e Pantanal, além de estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em intercâmbio de experiências e aprimoramento de habilidades. Participam jovens de comunidades pantaneiras, extrativistas, acampamentos e assentamentos rurais de Cáceres, Colniza, Novo Mundo, São Félix do Araguaia e Sinop.
Executado pelo Formad por meio do Instituto Caracol, com acompanhamento metodológico de aProteja.org e apoio técnico do Grupo de Pesquisas em Educação Ambiental (GPEA-UFMT), o projeto representa um fortalecimento essencial para a rede. Herman Oliveira, secretário executivo do Formad, afirma: "Para a rede Formad, este núcleo soma na construção coletiva de comunicação popular, próxima dos territórios e conduzida pelas comunidades. É a nucleação de nossa comunicação para alcançar mais lugares e pautas, marcando uma etapa de ampliação significativa".
Desde as primeiras atividades em Cuiabá, as juventudes demostraram a riqueza de produtos que emergem dos territórios, onde o conteúdo importa muito mais que a técnica. A discussão sobre clima abre diálogos sobre tradições, política, pressões, legado e cultura. O trabalho em rede envolveu construção colaborativa de propostas, entregas e atividades, respeitando realidades e condições diversas, com agendas virtuais preparatórias e de acompanhamento que possibilitaram interação contínua entre os jovens.
Midori Hamada, da aProteja.org, ressalta que a metodologia partiu do que já existe nos territórios para fortalecer as organizações participantes. "Incorporamos a comunicação popular às estratégias de mobilização e defesa dos territórios. Para nós, esse é o sentido fundamental da comunicação popular: fortalecer quem atua nas comunidades para produzir suas próprias narrativas e ampliar a incidência política das organizações do Formad".
O Formad reúne organizações com diferentes tamanhos, estruturas e experiências distribuídas por Mato Grosso. Essa diversidade fortalece a construção de rede de comunicação popular, onde cada organização contribui com suas habilidades. Grupos com experiência em audiovisual apoiam na edição de vídeos, enquanto especialistas em redação colaboram em revisões. Organizações com maior estrutura compartilham aprendizados com grupos que fortalecem essa área, fazendo o conhecimento circular dentro da rede e ampliando a capacidade coletiva do Formad.
Esta articulação auxilia a lidar com as distâncias do estado, já que alguns participantes percorrem até dois dias para chegar a Cuiabá. Fortalecer comunicadores nos territórios permite que pautas sejam registradas onde acontecem e circulem posteriormente pela rede. O Núcleo busca consolidar vínculos de solidariedade entre organizações, criando rede de comunicação onde capacidades distintas se complementam e contribuem com a atuação coletiva do Formad.
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