- Pela Redação
- 29/05/2023
Um encontro entre duas artistas pesquisadoras gerou "Floresta e as Pedras pelo Caminho", espetáculo que reúne música, dança, cantos e ritmos inspirados na cosmovisão das culturas populares de terreiro. A parceria entre Ana Carolina de Mello e Antônia Vilarinho, que se reencontraram através da Palhaçaria de Terreiro, metodologia criada pela última, resulta em uma obra de indicação livre que será apresentada em três praças culturais: Parque Cuiabá (3 de julho), Pedra 90 (4 de julho) e Jardim Vitória (5 de julho).
Floresta é a palhaça protagonista, criada por Ana Carolina sob orientação da pesquisadora maranhense Antônia Vilarinho. "É uma criação que celebra a alegria como fundamento ancestral e reza. Ana incorpora sua relação com a cultura popular, maracatu, slam e natureza, encontrando seu caminho na metodologia que aplicamos neste espetáculo", descreve Antônia.
A Palhaçaria de Terreiro representa uma abordagem metodológica contracolonial da comicidade, integrando corpo, ancestralidade, musicalidade e saberes tradicionais ligados às culturas africanas, capoeira angola e práticas afro-religiosas. "É um caminho ancestral para processos criativos que rejeitam a perspectiva eurocêntrica da palhaçaria clássica", explica Antônia, ela própria palhaça e pesquisadora.
O processo de criação subverte a ideia convencional de direção. Antônia funciona como orientadora, não diretora, em alusão ao Orí, divindade da tradição iorubá relacionada à essência e consciência individual. "A orientação é coletiva, aprendida nas comunidades quilombolas e religiões de matriz africana, sempre valorizando a circularidade e o trabalho colaborativo. A cultura popular é essa mistura, e a arte precisa dessa polifonia", relata.
O projeto teve seu início em abril, quando o elenco participou de uma residência artística com Antônia em Cuiabá, período de imersão que moldou a linguagem performática. "Com generosidade, ela potencializou nossa corporeidade e comicidade, valorizando nossa brasilidade", recorda Ana Carolina, para quem o encontro com sua mentora em 2024 foi transformador.
Após essa etapa inicial, o processo continuou com pesquisas, experimentações e interações entre Ana Carolina e as sonoplastas Mariana Borealis e Lívia Freire, que estarão em cena com elementos percussivos, canções comerciais selecionadas e composições autorais explorando ritmos de maracatu, forró e samba.
Sobre as "pedras" do título, Ana Carolina reflete sobre sua jornada: "O corpo cansado, sobrecarregado, treinado para o teatro convencional. A pedra foi aprender a escuta interior, confiar, superar o cansaço e permitir que a presença da palhaça se expressasse. Aprendi que a palhaçaria é complexa, uma linguagem da verdade onde a ação é verbo e o verbo é objeto".
O espetáculo propõe-se a ser um momento de celebração coletiva. "Nós, da cultura popular e palhaçaria, somos uma família. Quem chega é parte dela. O público virá para celebrar alegria, amor e paz, aquilo que precisamos neste mundo", conclui Antônia.
O projeto recebeu apoio do edital Viver Cultura (Política Nacional Aldir Blanc), viabilizado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso.
Da Cena à Universidade
Ana Carolina de Mello, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGECCO-UFMT), pretende incorporar essa experiência em sua dissertação acadêmica. Seu trabalho investigará a presença da palhaça na cultura afro-ameríndia e explorará o corpo colonizado sob perspectiva contracolonial.
Comprometida com a divulgação científica da metodologia de Antônia Vilarinho, Ana promoveu em 19 de junho na Galeria Mandala uma conversa sobre Palhaçaria de Terreiro com artistas e pesquisadores, oportunidade em que Antônia compartilhou sua trajetória artístico-acadêmica.
"O processo de montagem comporá o último capítulo de minha dissertação. Busco valorizar a Palhaçaria de Terreiro enquanto metodologia criativa contracolonial e aprofundar a investigação do corpo colonizado na cultura brasileira", revela a pesquisadora.
Apresentações
03 de julho - 20h - Praça Cultural Bairro Parque Cuiabá (Av. Valter Gallucci, S/N)
04 de julho - 19h - Praça Ana Martinha da Silva (Av. Newton Rabello de Castro, 403-455 - Pedra 90)
05 de julho - 19h - Praça Cultural do Jardim Vitória (Av. B - Jardim Vitória)
Equipe
Orientação: Dra. Antônia Vilarinho | Palhaça: Ana Carolina de Mello | Sonoplastia: Mariana Borealis e Lívia Freire | Iluminação: Xico Macedo | Objetos Cênicos: Duda Dal Bello | Dramaturgia: Coletiva | Figurinista: Einstein Halking | Produção: Emilia Vendramin | Produção Executiva: Anne Maldonado | Fotografia: Francisco Alves | Audiodescrição: Acessa Soluções em Acessibilidade | Intérprete de Libras: Larúbia Gualberto
0 Comentários
Faça um comentário