- Pela Redação
- 29/05/2023
A identidade cultural de Mato Grosso ganhou uma expressão em miniatura através das mãos da jornalista e artesã Maricelle Lima Vieira, 48 anos. Suas criações trazem elementos icônicos da região: a tradicional Viola de Cocho, templos religiosos como a Igreja do Rosário e São Benedito, fauna característica do Pantanal, além de flora local, transformados em delicados acessórios que cabem na palma da mão.
Filha de pantaneiros e nascida em Cuiabá, Maricelle enxergou no trabalho com cerâmica uma oportunidade de preservar e compartilhar a história do seu povo. Sua jornada criativa iniciou há aproximadamente dois anos e meio, quando participou de um curso de cerâmica tradicional ministrado pelo mestre Roney Ferraz, que despertou seu interesse pela linguagem dos materiais.
"Meu objetivo desde o início era criar peças de dimensões reduzidas, principalmente peças de vestuário e adorno, mas rapidamente compreendi que conseguiria ir muito além, incorporando elementos que definem a identidade e a cultura mato-grossense em objetos para uso diário", explica a artesã.

Inicialmente, Maricelle trabalhou com argila convencional, mas o método tradicional de queima se mostrou economicamente desafiador para peças tão pequenas. A solução veio de uma descoberta nas plataformas digitais: a cerâmica plástica, um material flexível que pode ser finalizado em fornos convencionais de cozinha, requerendo apenas uma temperatura de aproximadamente 130°C.
Essa mudança técnica revolucionou sua produção, permitindo que desenvolvesse uma linguagem visual própria e consolidasse seu estilo artístico.
"Hoje, minha criação está intrinsecamente ligada ao artesanato contemporâneo e à identidade de Cuiabá e do Pantanal. Como filha de pantaneiros, cuiabana e mato-grossense, essas referências compõem minha própria narrativa", compartilha.
O propósito central é transformar os objetos diminutos em símbolos portáteis da região. "Procuro desenvolver miniaturas que carreguem aspectos da nossa identidade e que as pessoas possam levar consigo para fora de Mato Grosso, funcionando como embaixadores do lugar", descreve.

Mercado em expansão para bijuterias e objetos artesanais
A estratégia de Maricelle de focar em pequenos acessórios encontra respaldo em dados de mercado robustos. Conforme pesquisa realizada pelo Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB) em 2026, envolvendo 2,4 mil consumidores distribuídos por todas as regiões brasileiras, bijuterias e joias artesanais representam 30% do universo de aquisições de produtos artesanais, perdendo apenas para objetos decorativos, que atingem 40% das compras.
O estudo revela que o perfil predominante de consumidor é feminino, representando 66% da audiência, com idade média de 37 anos. Para grande parte desses compradores, o artesanato transcende a questão estética: 24% valorizam produtos como ferramenta de preservação de manifestações e costumes regionais.
A cerâmica se destaca também nas grandes plataformas comerciais do setor. No 22º Salão do Artesanato, ocorrido em São Paulo em 2026, cerâmica e argila representaram 13,8% das categorias principais comercializadas. O evento gerou movimentação financeira de R$ 5,68 milhões com a comercialização de mais de 71 mil peças, comprovando a relevância econômica desse segmento.
Os indicadores confirmam que tanto as bijuterias artesanais quanto a produção cerâmica conquistaram espaço significativo e duradouro no mercado de consumo brasileiro.
Processo criativo que alia tecnologia e fazer manual
A escala redimensionada das produções de Maricelle demanda alto grau de precisão técnica. A artesã trabalha com quantidades mínimas de material, selecionando e combinando diferentes tons conforme a peça que deseja criar. Seu método criativo segue duas abordagens distintas: peças integralmente originais, esculpidas de forma espontânea e improvisada, e releituras de marcos culturais reconhecíveis.
"Algumas produções emergem de forma totalmente autêntica e livre. Nessas situações, começo a moldar sem um esboço previamente definido, permitindo que a forma se construa naturalmente. Quando atinjo um resultado satisfatório, procuro replicar aquela concepção", relata a criadora.
Para representações que necessitam manter características distintivas e reconhecíveis, como a Viola de Cocho e os pormenores arquitetônicos da Igreja do Rosário e São Benedito, ela utiliza moldes e ferramentas de corte especializadas. Alguns desses instrumentos foram desenvolvidos exclusivamente para seu trabalho por uma profissional especializada em tecnologia de impressão tridimensional.

O recurso tecnológico, contudo, representa apenas o estágio inicial do processo produtivo. "Mesmo recorrendo ao molde para estabelecer a configuração básica, existe abundância de trabalho manual subsequente. Realizo a assembléia, delineio os detalhes e executo a pintura integralmente por mão. Na fachada da edificação religiosa, por ilustração, cada abertura, entrada e elemento requer manipulação específica", explica.
Para Maricelle, a convergência entre recursos atualizados e o fazer tradicional do artesanato caracteriza verdadeiramente suas criações. "É precisamente essa fusão entre uma metodologia contemporânea, o trabalho manual personalizado e as bases culturais da nossa região que atribui singularidade e importância às peças."

Pequena produção, grande alcance simbólico
As criações continuam sendo desenvolvidas em regime de produção limitada. Uma das principais oportunidades de adquirir os trabalhos de Maricelle ocorre na Feira do Museu de História Natural, localizada na Avenida Beira Rio, em Cuiabá, com funcionamento todos os domingos entre 9h e 15h. Além disso, a artesã participa de diferentes feiras e eventos mediante convites específicos, além de receber demandas customizadas via redes sociais, no endereço @marilima.arteseformas.
Maricelle planeja aumentar sua capacidade produtiva de forma gradual, preservando o caráter eminentemente manual de suas composições. Para ela, suas miniaturas transcendem o status de simples acessórios, funcionando como elementos que preservam e comunicam memória compartilhada.
"Muito além de gerar acessórios decorativos, procuro concretizar pequenas obras de recordação e pertencimento, produzidas artesanalmente e nutridas pela narrativa do solo onde nasci e pelas histórias que fundamentam minha identidade", conclui.
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