Política predomina sobre técnica em discussão de tarifas dos EUA contra Brasil, alerta especialista

Especialista aponta viés político em investigação do USTR sobre tarifas de 25% contra produtos brasileiros



O Brasil se prepara para uma última rodada de negociações com autoridades americanas antes do anúncio oficial sobre a possível aplicação de uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras. O pronunciamento norte-americano está previsto para quarta-feira (15).

Josemar Franco, gerente de comércio internacional da BMJ, concedeu entrevista à CNN Brasil onde ressaltou que aspectos políticos se sobrepõem ao caráter técnico da investigação conduzida pelo USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) no âmbito da seção 301.

De acordo com Franco, embora a investigação apresente características fortemente técnicas, a realidade evidencia uma clara influência de motivações políticas na condução do processo. O especialista enfatizou que o setor privado, através de consultas públicas, audiências e reuniões diretas com autoridades americanas, desempenha papel central na definição final sobre a imposição ou não dessas tarifas.

Franco destacou que a administração atual dos Estados Unidos mantém grande abertura às demandas do empresariado, particularmente o setor americano, o que reforça a importância da mobilização de agentes econômicos.

A indústria utiliza como principal argumento contra as tarifas o impacto inflacionário que elas provocariam para consumidores norte-americanos. Franco apontou setores brasileiros irsubstituíveis nas cadeias de abastecimento dos EUA. O Brasil, por exemplo, domina a produção mundial de café solúvel, representando a única fonte viável desse produto. Caso as tarifas sejam implementadas, os consumidores americanos enfrentarão custos mais elevados ao importar esses bens.

O especialista alertou sobre um cenário potencialmente mais severo: a possibilidade de tarifas cumulativas atingindo 37,5%, resultante da soma da alíquota de 25% com uma taxa adicional de 12,5% proveniente de outro processo investigatório em andamento. Essa combinação reduziria drasticamente a competitividade dos produtos brasileiros frente aos concorrentes internacionais no mercado americano, afetando particularmente os setores de móveis e papel.

Franco questionou a fundamentação técnica das justificativas apresentadas pelo USTR para respaldar as tarifas, que abrangem questões como desmatamento ilegal e políticas relacionadas a sistemas de pagamento como o Pix. Segundo o especialista, essas argumentações carecem de solidez técnica, misturando temáticas distintas na tentativa de emprestar legitimidade ao resultado da investigação.

O encontro esperado representaria a quinta rodada de negociações entre os dois países, ocorrendo no contexto do grupo de trabalho estabelecido após a visita do presidente Lula a Donald Trump. Esse grupo foi constituído especificamente para debater questões tarifárias e comerciais bilaterais.

O governo brasileiro pretende alinhar discussões com Jameson Greer, chefe do USTR. Após o quarto encontro, Márcio Elias havia informado à imprensa que esperava a realização dessa quinta reunião no início da semana atual.

Apesar das negociações em andamento, há consenso no Palácio do Planalto de que o cenário mais provável é a efetivação das tarifas por parte dos Estados Unidos. Um possível adiamento na decisão não é completamente descartado, mas é considerado improvável.

A estratégia do governo brasileiro mantém o posicionamento adotado até o momento, recusando concessões que considere infundadas. Na semana passada, o presidente Lula se reuniu com seus ministros, incluindo Mauro Vieira e Márcio Elias, para avaliar as perspectivas das negociações.

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