Operação do MPRJ fecha bingo clandestino na Rua Conde de Bonfim e apreende 99 máquinas na Tijuca

Ministério Público deflagra ação contra estabelecimento ilegal vinculado à organização criminosa da 'nova cúpula do jogo do bicho' na Zona Norte



O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) realizou uma operação na manhã de quinta-feira (6) que resultou no fechamento de um bingo clandestino localizado na Rua Conde de Bonfim, principal via comercial do bairro da Tijuca, na Zona Norte. Conforme informações obtidas até o momento da reportagem, 99 máquinas caça-níqueis foram apreendidas e transportadas em um caminhão.

MPRJ estoura bingo na Tijuca

O local funcionava no térreo de um edifício residencial, entre diversas lojas comerciais, sem identificação na entrada. A porta de acesso era vedada por uma grade de proteção com pequeno vão para entrada.

Estrutura financeira de organização criminosa

De acordo com o Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ), o estabelecimento integrava a infraestrutura financeira de uma organização criminosa identificada como "nova cúpula do jogo do bicho". A investigação ministerial originou-se da análise de dados extraídos de aparelhos celulares capturados durante a Operação Fissão, implementada em outubro de 2024.

As investigações revelaram que Rogério Costa de Andrade e Silva, Vinicius Pereira Drumond e Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, atuam como principais lideranças da organização. "Com o prosseguimento das diligências, relatórios de inteligência identificaram uma rede extensa de bingos clandestinos operando sob controle do grupo", acrescentou o MPRJ.

Em operação anterior, realizada em um imóvel na Rua Maxwell, em Vila Isabel, foram apreendidas 48 máquinas caça-níqueis e outros equipamentos utilizados na exploração ilegal de jogos de azar.

Rogério Andrade

Rogério Andrade é sobrinho de Castor de Andrade, figura proeminente da contravenção carioca. Patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, encontra-se desde novembro de 2024 no Presídio Federal de Campo Grande (MS), acusado de ter encomendado o homicídio de Fernando Iggnácio.

Iggnácio, genro e herdeiro de Castor, foi assassinado em 10 de novembro de 2020 em uma emboscada no Recreio dos Bandeirantes. Ao desembarcar de um helicóptero oriundo de Angra dos Reis, foi alvo de disparos de fuzil 556 quando se dirigia para seu veículo.

Com a morte do tio em 1997, Rogério não herdou imediatamente os negócios. A sucessão coube a Paulo Roberto de Andrade, conhecido como Paulinho (filho de Castor), e a Fernando Iggnácio (genro do chefão), que assumiram a administração do império contraventivo.

Na divisão de responsabilidades, Iggnácio cuidava dos caça-níqueis enquanto Paulinho administrava as bancas do jogo do bicho. Rogério, contudo, considerava-se detentor de direitos sucessórios e iniciou uma disputa territorial com ambos. Paulinho foi morto em 1998, crime atribuído a Rogério, que subsequentemente consolidou o negócio do primo e intensificou a pressão sobre o de Iggnácio.

Adilsinho

Adilson Oliveira Coutinho Filho, denominado Adilsinho, é identificado em operações policiais como um dos principais articuladores do monopólio ilegal de cigarros contrabandeados no Rio e era um dos bicheiros mais procurados do estado.

Após anos de investigação, foi capturado em fevereiro em Cabo Frio, Região dos Lagos. Um monitoramento com drones colaborou para sua localização.

No mês anterior, Adilsinho foi alvo de nova ordem de prisão, decorrente da 5ª fase da Operação Unha e Carne, que também resultou na captura do pastor Márcio Poncio.

Nas buscas efetuadas, investigadores da Polícia Federal localizaram anotações no criado-mudo contendo referências a 61 políticos fluminenses com valores agregados acima de R$ 20 milhões. Conforme os autos, as anotações sugerem que candidatos possam ter recebido recursos originários do jogo do bicho durante as disputas eleitorais de 2022.

Os documentos foram coletados na Operação Smoke Free, deflagrada em 2022. A partir desses achados, investigadores começaram a examinar ligações entre empresas impressoras contratadas por campanhas eleitorais e a estrutura conduzida por Adilsinho, originando a Operação Unha e Carne 5.

Adilsinho já era reconhecido como controlador parcial do jogo do bicho em territórios relevantes da Região Metropolitana. Expandiu suas atividades conquistando áreas da Zona Sul, Centro e Zona Norte da capital que eram domínio de Bernardo Bello, contraventor que se encontra desaparecido e teria perdido prestígio no cenário.

No universo da contravenção, Adilsinho propugnava pela criação da "nova cúpula". Buscando imitar antigos bicheiros, procurou vincular-se a uma agremiação de samba — em 2024 tornou-se patrono da escola Salgueiro.

Em 2021, durante a pandemia de Covid-19, uma celebração de Adilsinho no Copacabana Palace chamou atenção pelas aglomerações em período de isolamento social e pela notoriedade dos participantes. O convite para a festa de 51 anos utilizava a trilha sonora do filme "O Poderoso Chefão", que retrata a máfia italiana.

Celebridades como Ludmilla, Gusttavo Lima, Alexandre Pires e Mumuzinho foram contratados para apresentações no evento. A celebração custou R$ 4 milhões, conforme apuração da TV Globo.

Vinicius Drumond

Vinicius Pereira Drumond é filho e continuador dos negócios contraventivos do bicheiro Luizinho Drumond, falecido em 2020.

Vinicius também recebeu como herança a influência sobre a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, agremiação do Grupo Especial carnavalesco carioca. No presente, porém, a entidade é conduzida por Cátia, filha de Luizinho.

Em fevereiro de 2025, Vinicius foi alvo de operação da Polícia Civil acusado de participação em quadrilha especializada em roubo de combustíveis em dutos petrolíferos. Segundo as investigações, Vinicius atuava como gestor estratégico e financeiro do bando. A organização operava no RJ e demais estados, extraindo principalmente petróleo para comercialização como matéria-prima destinada à fabricação de asfalto, borracha e plásticos.

Em julho de 2025, Vinicius sofreu uma ação de execução na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste, resultando em ferimentos leves por fragmentos vítreos. O ataque ocorreu em horário diurno na Avenida das Américas, principal logradouro do bairro. Vinicius trafegava em um Porsche blindado quando foi alvo da emboscada. As estruturas referentes aos assentos dianteiros foram penetradas por mais de 30 projéteis.

Averiguações conduzidas pela Polícia Civil e Ministério Público identificam Vinicius como integrante da "nova cúpula" do jogo do bicho, tendo recebido do genitor territórios na Zona da Leopoldina, região que abrange localidades como Ramos, Manguinhos, Maré, Bonsucesso, Complexo do Alemão, Penha, Parada de Lucas e Vigário Geral.

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