Laudo da Polícia Federal revela alertas repetidos de falha no sistema de degelo da Voepass antes do acidente

Investigação conclui que tripulação conhecia problemas na aeronave e não reportou falhas que impediriam decolagem



O relatório final da Polícia Federal sobre a queda do avião ATR 72 da Voepass apresenta conclusões críticas: a tripulação tinha conhecimento de deficiências no sistema de degelo da aeronave. O desastre resultou na morte de 62 pessoas.

A aeronave caiu sobre uma residência em Vinhedo, interior paulista, em 9 de agosto de 2024. Dois anos após o incidente, os peritos federais determinaram a causa: perda de controle durante o voo provocada pelo acúmulo de gelo na fuselagem, sistema pneumático de degelo inoperante e execução inadequada de cinco procedimentos críticos pelos pilotos.

Laudo aponta sequência de falhas em tragédia da Voepass

O programa Fantástico obteve acesso exclusivo ao laudo. Conforme o documento, uma falha específica se repetia consecutivamente na mesma peça: o sistema de degelo da asa direita. Nenhuma das tripulações registrou a ocorrência no livro de bordo. De acordo com os investigadores, tal registro evitaria decolagens subsequentes até a reparação do equipamento. Os peritos descrevem essa omissão como "uma violação das obrigações estabelecidas para as equipes aéreas".

No trajeto imediatamente anterior ao acidente fatal, utilizando os mesmos pilotos que pereceram na tragédia, o sistema de alerta acionou oito vezes. Ao pousar em Cascavel, Paraná, o comandante comentou com o primeiro oficial:

"Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente, escutei um barulho aqui. Foi o gelo que voou. Chegamos vivos".

Instantes depois, o piloto Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos iniciaram o voo rumo a Guarulhos, São Paulo, transportando dois tripulantes adicionais e 58 passageiros. No voo que resultou em tragédia, o alarme acionou novamente às 12h15, horário regional. O piloto respondeu:

"É o Airframe que deu fault, pode tirar, pode tirar".

O termo "airframe" refere-se ao alerta do sistema de degelo das asas e "fault" significa falha. Logo, a aeronave sinalizava um problema no mecanismo responsável por evitar formação de gelo. Segundo os investigadores, ao pronunciar "pode tirar", o piloto desativou o sistema. Próximo ao momento do sinistro, cerca das 13h20, o copiloto novamente alertou sobre as condições atmosféricas:

"Bastante gelo ali. Ligar o airframe".

O piloto respondeu com um palavrão, mencionando que o sistema "não está funcionando, né?". Com acúmulo severo de gelo nas estruturas alares, a aeronave disparou sucessivos avisos: perda de velocidade, degradação de desempenho e aceleração necessária. Os investigadores indicam que a tripulação dispunha de poucos segundos para agir, mas não executou as manobras requeridas. A aeronave entrou em parafuso incontrolável, completando cinco rotações sobre seu eixo longitudinal.

O documento pericial constitui elemento fundamental para a investigação. Embasados nele, em registros adicionais e em depoimentos numerosos, os investigadores federais identificarão os responsáveis. O resultado do inquérito será divulgado nesta quinta-feira.

A Voepass comunicou que aguarda a publicação do parecer das autoridades federais antes de se posicionar publicamente.

A cobertura jornalística da Globo reconstrói estes acontecimentos através da série documental "Voepass 2283 - a queda", que estreia sexta-feira na plataforma Globoplay.

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