- Pela Redação
- 29/05/2023
Instalada na esquina da QNO 19, em Ceilândia (DF), a Capela Santo Atanásio mantém viva a tradição da missa tridentina, celebrada integralmente em latim com práticas anteriores às mudanças do Concílio Vaticano II. Vinculada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), a comunidade reuniu aproximadamente 30 fiéis em sua celebração de quinta-feira (16/7), momento em que o Metrópoles presenciou os rituais de uma congregação que enfrentou excomunhão papal nesta semana.

Ao chegar na cappela, os visitantes recebem orientações de operários que explicam o funcionamento da celebração e distribuem livretos com as orações em latim e português. Dois recipientes na entrada chamam atenção: um contém véus brancos para mulheres solteiras, outro com véus pretos destinados a casadas e viúvas. Antes de entrar no templo sagrado, todas as mulheres e meninas cobrem a cabeça com a tradicional mantilha de renda, costume mantido durante toda a celebração.
A prática fundamenta-se na tradição católica e na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Para os devotos ligados ao rito tradicional, o véu simboliza reverência diante do divino e respeito ao momento sagrado. Celulares estão proibidos no espaço sagrado.
No interior da cappela, o silêncio é absoluto. Homens vestem terno e roupas formais, enquanto mulheres usam vestidos e saias compridas, rejeitando calças. Até as crianças acompanham os pais com mantilhas brancas. Enquanto alguns permancem sentados nos bancos de madeira, outros rezam ajoelhados. O padre Françoá Costa atende fiéis que desejam confissão antes da celebração, posicionado junto ao altar.
As paredes brancas e azuis contrastam com um altar simples, adornado com um crucifixo central, imagens de santos e candelabros iluminados discretamente, reforçando o clima de recolhimento espiritual.
Ao entrar, todos fazem o sinal da cruz. Muitos seguram terços nas mãos e se ajoelham brevemente antes de ocupar os bancos. Apenas o som baixo de orações permeia o ambiente. Naquela noite, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o padre anunciou que colocaria escapulários nos fiéis ainda não batizados e aspergeria água benta na comunidade. Segundo ele, receber o escapulário significa assumir compromisso espiritual, como rezar diariamente ou cumprir penitências.
Às 19h30, três badaladas do sino anunciam o início da missa. Todos se levantam para receber o padre, que entra pelo corredor central vestido com paramentos dourados, acompanhado por dois coroinhas de preto e branco. Enquanto caminha até o altar, os fiéis fazem leve reverência respeitosa, acompanhando a procissão do sacerdote.
O que impressiona quem frequenta o lugar pela primeira vez é a posição do padre diante do altar. Durante praticamente toda a celebração, ele permanece voltado para o altar, de costas para a comunidade. Na Missa Tridentina — também denominada Missa Tradicional ou Missa de São Pio V —, sacerdote e comunidade permanecem direcionados para a mesma direção, simbolizando que caminham juntos rumo a Deus.
A maior parte da celebração transcorre em latim, e em certos momentos os fiéis respondem às orações acompanhando os livretos. Em outros, permanecem em silêncio, especialmente durante o Cânon Romano, a principal oração eucarística da celebração.
Uma fiel que frequenta a comunidade há um ano relata que o idioma pode causar estranhamento nas primeiras vezes, mas a dificuldade diminui com o tempo. "Estou fazendo um cursinho de latim para conseguir acompanhar com mais calma, mas, com o ordinário da Santa Missa, a gente consegue seguir a celebração, porque o texto está em latim e em português", afirma.
A celebração segue a sequência tradicional: orações ao pé do altar, leituras, sermão, profissão de fé, ofertório, consagração, comunhão e orações finais. O apogeu acontece na consagração, quando o sacerdote eleva a hóstia e o cálice, e os olhos dos fiéis permanecem fixos no altar durante todo o rito.
Na comunhão, os que desejam receber a Eucaristia formam fila diante do altar. Um a um, os fiéis comungam de joelhos, recebendo a hóstia diretamente na língua. Depois retornam aos bancos, onde permanecem ajoelhados em oração. Quem não comunga continua sentado, esperando o término daquele momento.
Encerrada a celebração, todos se levantam para a saída do padre e dos coroinhas. Mais uma vez, os fiéis fazem reverência enquanto deixam o altar; após esse momento, alguns saem imediatamente. Outros permanecem ajoelhados por mais alguns minutos, prolongando o repouso espiritual mesmo após o término da missa.
Outra devota acompanha a trajetória do padre Françoá da Costa desde sua chegada a Brasília, em 2021, antes mesmo de possuir espaço para celebrar. Na época, ela cedeu um terreno em sua chácara, no Incra 9, para que celebrasse os ritos. Como o local ficava afastado, muitas mulheres relatavam insegurança para participar; após diversas tentativas, o sacerdote conseguiu alugar um imóvel em Ceilândia. Em 2025, fundou a Capela Santo Atanásio.
"Quando participei da primeira missa, vi que era exatamente o que eu queria", conta ela, reconhecendo que o latim pode causar estranhamento, mas isso não impede os fiéis de acompanhar. "A gente não sabe latim, mas usa um livrinho com o texto em latim e a tradução em português. Assim, você consegue acompanhar e perceber o quanto tudo é profundo", explica.
Para essa devota, um dos momentos mais emblemáticos é quando o padre celebra voltado para o altar, de costas para a assembleia. "Ele reza de frente para a cruz, porque é o sacrifício de Jesus se oferecendo a Deus para nos salvar. A missa não é para que a gente simplesmente entenda tudo, mas para participar desse sacrifício de Cristo", afirma.
Excomungado pelo Vaticano após confirmação do vínculo da Capela Santo Atanásio com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o padre Françoá Costa declarou que continuará exercendo normalmente seu ministério religioso e classificou como "inválida" a decisão da Igreja Católica.
O sacerdote afirmou que não pretende recorrer da decisão do papa e sustentou que nem ele nem a comunidade se consideram em situação de cisma, termo utilizado para definir a ruptura da comunhão com a autoridade papal e da hierarquia eclesiástica.
A FSSPX, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, defende a preservação das tradições católicas, como a celebração da missa em latim e a manutenção dos ensinamentos anteriores às reformas do Concílio Vaticano II.
O Vaticano, por sua vez, considera que a fraternidade rejeita parte das reformas aprovadas pelo concílio e desafia a autoridade eclesiástica, provocando sucessivos embates que culminaram na recente declaração de cisma e excomunhão.
A excomunhão foi anunciada após sagrações episcopais realizadas em 1º de julho sem autorização papal. Segundo o Vaticano, a consagração de bispos sem aprovação papal viola o Código de Direito Canônico.
A Arquidiocese de Brasília publicou nota informando que a Capela Santo Atanásio e o padre Françoá estão em situação de cisma e que os sacramentos administrados no local, como confissões e casamentos, são inválidos.
Para o sacerdote, contudo, a própria legislação eclesiástica prevê exceções que afastariam a aplicação da pena. Apesar disso, Françoá afirmou reconhecer a autoridade do papa e disse rezar diariamente por ele durante as missas.
"Para nós, essas excomunhões e essas declarações de cisma são totalmente inválidas. Em consciência, não houve nem cisma nem excomunhão. A nossa vontade não é de nos separar nem do papa e nem da Igreja Católica", afirmou.
Segundo o padre, a decisão do Vaticano não altera a rotina da comunidade. Ele afirmou que missas, confissões, casamentos, batizados e demais celebrações continuarão sendo realizados normalmente na cappela, seguindo os ritos tradicionais da comunidade.
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