- Pela Redação
- 29/05/2023
Auxiliares do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entendem que os Estados Unidos deverão restabelecer as conversas comerciais bilaterais, incluindo discussões sobre a taxação de 25% em produtos brasileiros, somente após a realização da eleição presidencial deste ano.

Conforme apurou o Metrópoles, entre os integrantes ouvidos da gestão, predomina a convicção de que a administração Trump considera inadequado retomar negociações com um governo que não cumpre as exigências norte-americanas a poucos meses de um pleito que escolherá o próximo presidente até 2030.
No decorrer deste ano, o governo norte-americano solicitou ao Brasil que adotasse medidas para frear investimentos estrangeiros no segmento de minerais críticos e terras raras provenientes de atores "extra-hemisféricos", ou seja, fora das Américas. Conforme indicado por integrantes brasileiros envolvidos nas tratativas, o pedido tinha como objetivo conter os investimentos chineses.
O pedido foi formulado no início deste ano, em uma das etapas de negociação entre equipes de alto escalão dos dois países acerca das relações comerciais múltiplas. O Brasil, contudo, recusou a proposta, considerando-a imprópria.
Washington também cobrou a liberalização integral do setor químico, a eliminação de tarifas sobre produtos industrializados e maior penetração no mercado automotivo, dentre outras exigências. O Brasil rejeitou essas demandas, detectando potenciais danos a indústrias domésticas.
Apesar da taxação que começará a vigorar na próxima quarta-feira (22/7), a estratégia no Planalto é ampliar o rol de exceções, que já alcança mais de 2 mil categorias de bens brasileiros. Porém, no curto prazo, a administração Lula também não identifica abertura dos norte-americanos para progresso nessas conversações.
Se o eleito for o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), as perspectivas para entendimento com a gestão norte-americana já se mostram promissoras.
Em meados de junho, pouco depois de encontrar Trump na Casa Branca, o parlamentar encaminhou missiva ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, comunicando estar "pronto" para disponibilizar seu time de transição "instantaneamente" caso conquiste o pleito. Rubio respondeu manifestando gratidão pela "generosa oferta".
De acordo com informações obtidas, ainda que representantes do governo norte-americano afirmem publicamente manter os canais abertos com o Brasil, acredita-se que os avanços acontecerão apenas depois das eleições. Interlocutores do Planalto exemplificam essa posição citando a resposta de Rubio após a confirmação da tarifa de 25% contra o Brasil.
Por meio de mensagem em rede social, o secretário declarou que o Brasil não agiu com "boa-fé" nas negociações tarifárias com os EUA. Rubio complementou afirmando que as medidas econômicas de Lula prejudicam tanto cidadãos norte-americanos quanto brasileiros e que o presidente "colocou sua vaidade pessoal acima de um acordo para o bem do povo brasileiro, essas tarifas são a consequência disso".
O pronunciamento causou desconforto na gestão brasileira. Segundo funcionários do governo, a fala foi articulada para beneficiar Flávio Bolsonaro, pois foi amplificada por ele e seus apoiadores com intuito de fortalecer a narrativa de que Lula seria o culpado pelo tarifaço.
O chanceler Mauro Vieira respondeu publicamente que as manifestações são "inadmissíveis e ofensivas" e que Rubio criticou Lula "com brutalidade e prepotência".
O Brasil também compreende que há potente atuação de um setor mais ideológico do Departamento de Estado dos EUA, sob a liderança de Marco Rubio, orientando as escolhas de punição ao país desde a primeira rodada de tarifas. A gestão Lula sustenta que a cobrança tem motivação política e ideológica e que a fundamentação apresentada pelos EUA carece de solidez técnica.
A administração tem exercido moderação quanto a declarações públicas de Lula sobre o tema. A diplomacia brasileira acredita que, caso Trump faça alguma manifestação direta, será considerada uma resposta pública do presidente.
Na sexta (17/7), durante compromissos no Rio de Janeiro, Lula comunicou que aguardará um pronunciamento direto do comandante norte-americano antes de comentar sobre o tarifaço. Mesmo assim, declarou que deseja enfrentar uma "guerra da narrativa e da verdade" a respeito do assunto e que Trump "precisará aprender a combater" utilizando a "força da palavra".
Neste instante, não está programado contato bilateral entre os dois chefes de Estado — nem por iniciativa da parte brasileira, nem da norte-americana. A possibilidade, porém, permanece em aberto, caso seja avaliada como relevante.
A interação entre Lula e Trump, portanto, continuará "realista" e "apropriada", segundo fontes da administração.
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