Fato ou Fake: Checagem das Declarações de Romeu Zema na Entrevista à Globo

Candidato do Novo à Presidência tem afirmações analisadas por especialistas em verificação de dados



O pré-candidato à Presidência da República pelo partido Novo, Romeu Zema, participou de entrevista exibida pela Globo na segunda-feira (24). A conversa, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli direto dos Estúdios Globo no Rio, integra uma série de sabatinas com postulantes ao Palácio do Planalto. Pela primeira vez, estas entrevistas foram ao ar após o "Jornal Nacional" e não durante sua transmissão.

A emissora convidou os seis candidatos mais bem posicionados conforme pesquisa de intenção de voto divulgada pela Quaest em 14 de agosto. A sequência das entrevistas foi definida por sorteio, com a participação de representantes dos partidos políticos envolvidos.

Cronograma das entrevistas:

  • 24 de agosto (segunda) - Romeu Zema (Novo)
  • 25 de agosto (terça) - Ronaldo Caiado (PSD)
  • 26 de agosto (quarta) - Renan Santos (Missão)
  • 27 de agosto (quinta) - Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
  • 28 de agosto (sexta) - Flávio Bolsonaro (PL)
  • 29 de agosto (sábado) - Augusto Cury (Avante)

A equipe de verificação de fatos analisou as principais afirmações do candidato. Confira:

Declaração: "Eu fui a El Salvador, inclusive sou o único candidato que esteve lá."

#FAKE - Razões:

Zema esteve em El Salvador, país sob comando de Nayib Bukele, durante três dias em maio de 2025. Contudo, sua alegação de ser o único candidato presidencial a visitar o território caribenho é improcedente. Pelo menos um concorrente já realizou essa viagem. Em novembro de 2025, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) visitou o país e documentou o trajeto em suas redes sociais, passando por instituições de segurança como a Polícia Nacional Civil e reunindo-se com autoridades de segurança pública salvadorenhas.

Declaração: "Eu assumi [como governador de MG], Renata, não sei se você tem esse dado aí, com um déficit de R$ 11 bilhões [nas contas do estado], em 2018. Eu saí com superávit de R$ 5 bilhões, ou seja, o estado gastando menos do que arrecada, e antes gastava-se muito mais do que arrecadava."

#NÃOÉBEMASSIM - Razões:

Romeu Zema iniciou seu primeiro mandato como governador em janeiro de 2019, interrompendo-o em março deste ano para dedicar-se à campanha presidencial. Segundo o Balanço Geral do Estado de 2018, divulgado pela Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais (SEF-MG) ao final daquele ano, o déficit orçamentário foi de cerca de R$ 11,4 bilhões. No encerramento de 2025, último ano completo antes de sua saída, a SEF-MG registrou um superávit de R$ 1,1 bilhão. O saldo de R$ 5,1 bilhões mencionado na entrevista refere-se especificamente ao ano de 2024, impulsionado por receitas extraordinárias dos acordos de Mariana e Brumadinho. Para 2026, a projeção da SEF-MG aponta novo déficit de R$ 5 bilhões.

Declaração: "Minas, vale lembrar, tem uma taxa [de feminicídios] menor que a média Brasil."

#FAKE - Razões:

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mais recente, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados de 2025, a taxa de feminicídios em todo o Brasil foi de 1,4 para cada 100 mil mulheres. Em Minas Gerais, esse indicador permaneceu em 1,6 feminicídio a cada 100 mil mulheres, superior à média nacional. Oito unidades federativas apresentaram taxas inferiores à média: Amazonas (0,9), Bahia (1,3), Ceará (1), Rio de Janeiro (1,2), Rio Grande do Norte (1,1), Santa Catarina (1,3), São Paulo (1,1) e Sergipe (1,3).

Declaração: "Quando eu assumi [o governo do estado, em janeiro de 2019], a dívida de Minas representava 192% da receita corrente líquida. Quando eu saí, era cerca de 160%."

#FATO - Razões:

Em dezembro de 2018, mês anterior ao início do primeiro mandato de Zema, a dívida líquida pública estadual era aproximadamente R$ 106,5 bilhões, equivalendo a 189,03% da receita corrente líquida, conforme relatório de Gestão Fiscal divulgado pela SEF-MG em 29 de janeiro de 2019. Já ao término de 2025, a dívida atingiu R$ 187,1 bilhões, representando 167,46% da receita corrente líquida, segundo relatório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) publicado em 29 de janeiro de 2026. Esse débito com a União origina-se da década de 1990 e expandiu-se progressivamente. Em 2018, sob gestão do ex-governador Fernando Pimentel (PT), Minas Gerais conquistou liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendendo o pagamento, manutenção que persiste via decisões judiciais subsequentes.

Declaração: "Tem estatísticas que apontam que 60 milhões de brasileiros vivem em área controlada pelas facções e crime organizado, que eu vou enquadrar como organizações terroristas."

#FATO - Razões:

Pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha, publicada em maio deste ano, indica que 68 milhões de brasileiros reconhecem a presença de grupos criminosos envolvidos em tráfico de drogas ou atividades de milícia em seus bairros, representando 41% da população. Dentre esses, aproximadamente metade classifica essa presença como "visível" ou "muito visível". Apenas 12% relataram terem sido coagidos a contratar serviços oferecidos por criminosos. A executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, considerou esses números uma "notícia positiva" em termos de incidência, pois essa "camada adicional e mais brutal de exploração" parecia restrita a determinadas localidades. Em junho de 2025, novo levantamento Datafolha, também contratado pelo Fórum, demonstrou que aproximadamente 28,5 milhões de pessoas convivem com o crime organizado em suas vizinhanças. Adicionalmente, o estudo "Governança criminal na América Latina: prevalência e correlações" realizado pela Universidade de Cambridge e publicado em agosto de 2025, estimou entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de pessoas morando em territórios sob domínio de facções criminosas.

Declaração: "Lembrando que nós tivemos um governador no passado que fez uma mudança na Constituição Mineira que fazia com que qualquer estatal que fosse ser vendida precisava de três quintos de aprovação da Assembleia. E nós conseguimos esses três quintos recentemente e vendemos a Copasa [Companhia de Saneamento de Minas Gerais]."

#FATO - Razões:

Em 2001, a emenda nº 50 foi incorporada à Constituição mineira, instituindo quórum de três quintos da Assembleia Legislativa (ALMG) para leis autorizando "alteração da estrutura societária ou cisão de sociedade de economia mista e de empresa pública ou alienação de ações garantindo controle direto ou indireto dessas entidades pelo Estado". Essa proposta foi apresentada pelo então governador Itamar Franco. A mesma emenda exigiu referendo popular para desestatização de empresas públicas prestadoras de serviços de distribuição de gás canalizado, geração, transmissão e distribuição de energia elétrica ou saneamento básico. Em 2023, Zema propôs nova emenda que praticamente revogaria ambas as alterações. A ALMG aprovou texto menos abrangente, eliminando a exigência de referendo exclusivamente para privatização de "empresa prestadora de serviço de saneamento básico", mantendo o quórum de três quintos para demais desestatizações. Em 2025, a ALMG aprovou com 53 votos a 19 (68% dos 77 deputados) o projeto governamental autorizando privatização da Copasa, efetivamente realizada em 2026.

Agora no g1

Responsáveis pela verificação: Camilla Alcântara, Clara Gomes Simão, Jan Niklas, Jorge Fofano, Marcelo Parreira, Mel Trench, Roney Domingos e Vinícius Cassela.

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