- Pela Redação
- 29/05/2023
Praticamente dois anos após a detenção do líder narcotraficante Ismael "El Mayo" Zambada, o Cartel de Sinaloa enfrenta uma disputa intestina que amplifica a onda de criminalidade na região noroeste mexicana. A facção continua operando ativamente no transporte de fentanil, conforme evidenciado por levantamento da organização International Crisis Group divulgado recentemente.
O estudo, elaborado mediante entrevistas com gestores públicos, militantes, intelectuais e moradores locais de Sinaloa, emergiu um dia após Zambada concordar em receber sentença de cadeia perpétua, solicitando transferência para estabelecimento penitenciário que garanta assistência médica adequada. Sua condenação será proferida em 20 de julho.
Zambada, cofundador da organização juntamente com Joaquín "El Chapo" Guzmán (encarcerado nos EUA), foi capturado em julho de 2024 em solo americano. Conforme sua versão dos fatos, foi iludido por Joaquín Guzmán López, descendente de El Chapo, que o transportou de avião até os Estados Unidos, onde ambos foram apreendidos.
O episódio gerou desacordos diplomáticos entre México e Estados Unidos, com as autoridades mexicanas exigindo esclarecimentos pormenorizados sobre as operações que levaram à sua captura.
No contexto doméstico, a prisão desencadeou competição feroz entre as principais alas da organização criminal: Los Mayos e Los Chapitos. Essa rivalidade resultou em centenas de assassinatos e episódios sucessivos de barbárie, com grupos disputando o controle de uma das maiores estruturas delitivas americanas.
De acordo com a International Crisis Group, "a ruptura violenta no Cartel de Sinaloa transformou-se em uma das maiores crises de segurança enfrentadas pela presidente Claudia Sheinbaum". Os dois blocos rivais inicializaram enfrentamentos em setembro de 2024, competindo pela supremacia em localidades estratégicas como Culiacán e Mazatlán.
Os combatentes fazem emprego de fuzis, automóveis blindados e até aeronaves não tripuladas para exercer coerção. Cada lado recorre a atos de extrema violência para subjugar o adversário, utilizando táticas que incluem vingança extrema, recrutamento de jovens assassinos sem experiência e adoção de procedimentos de outras organizações delitivas para demonstrar domínio.
Além de Los Mayos e Los Chapitos, a estrutura engloba outras duas correntes principais: uma sob liderança de Aureliano Guzmán (cognominado "El Guano", irmão de El Chapo) e outra que compreende remanescentes dos Beltrán Leyva, conduzida por Fausto Isidro Meza Flores (alcunhado "El Chapo Isidro"). A International Crisis Group identificou minimamente vinte grupos menores operando em alianças flutuantes com essas estruturas principais.
Entre setembro de 2024 e maio de 2025, Sinaloa contabilizou 2.829 homicídios segundo dados governamentais. No ano em curso, foram registrados 1.656 casos até maio, representando o período mais letal da região em aproximadamente dez anos.
Embora o contingente militar deslocado pelo governo de Sheinbaum tenha conseguido diminuir confrontos públicos em Culiacán, a violência simplesmente migrou para zonas periféricas e rurais. Simultaneamente, apesar de intensificação nas apreensões e prisões, não há comprovação de interrupção na fabricação e escoamento de fentanil em direção aos EUA. Consumidores nas cidades fronteiriças de Tijuana e San Diego relatam manutenção na oferta e acessibilidade da substância.
Conforme o relatório: "A violência se intensificou nas regiões interioranas, enquanto homicídios e desaparecimentos continuam em ritmo acelerado, inclusive atingindo indivíduos desvinculados das facções em combate. Fundamentalmente, as autoridades federais permanecem distantes de expulsar os grupos criminosos de Sinaloa e de interromper suas fontes de financiamento".
A disputa entre facções ocorre sob pressão crescente do governo norte-americano. Em fevereiro de 2025, a administração Trump classificou o Cartel de Sinaloa como organização terrorista internacional, medida também aplicada a outros cartéis mexicanos como Jalisco Nova Geração, Golfo, Nordeste, Unidos e La Nueva Familia Michoacana.
Em abril de 2025, o Departamento de Justiça acusou o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, e nove outros agentes públicos de delitos conexos ao narcotráfico, negações que eles veementemente refutam. Sheinbaum contesta que os EUA não disponibilizaram evidências suficientes e garante que a investigação prossegue via Procuradoria-Geral.
A International Crisis Group recomenda que o governo mexicano, ainda que argumentando proteção da soberania, não desconsidere as acusações contra políticos e desenvolva investigações rigorosas, julgamentos apropriados de crimes violentos relacionados ao tráfico e operações destinadas a desarticular teias de corrupção que sustentam a criminalidade em Sinaloa.
"Enquanto as estruturas fundamentais do domínio do crime organizado não forem confrontadas, Sinaloa e demais regiões mexicanas permanecerão sob clima de apreensão. O México não deve permitir que receios de interferência estadunidense distorçam a necessidade de implementar transformações profundas autonomamente."
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