ANTT substitui contrato investigado pela PF por empresa mais cara com mesmo grupo suspeito

Agência reguladora troca R7 Facilities por Esplanada Serviços, ambas alvo de operação da Polícia Federal por fraude em licitações



A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) substituiu seu contrato de terceirização por um novo acordo ainda mais oneroso, beneficiando empresa que integra o mesmo grupo investigado pela Polícia Federal, segundo apuração exclusiva da coluna Tácio Lorran.

Desde 2023, a empresa R7 Facilities fornecia aproximadamente 200 funcionários de apoio administrativo para a ANTT. Porém, em fevereiro de 2024, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Dissímulo contra a companhia, apontando-a como controlada de forma oculta pelo policial civil aposentado Carlos Tabanez, ex-deputado distrital.

De acordo com as investigações, as suspeitas incluem fraudes em licitações, falsidade ideológica e estelionato. A CGU revelou que o esquema utilizava "laranjas" como sócios para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, dificultando a fiscalização e expandindo as operações fraudulentas.

Apesar dessa situação delicada, a ANTT renovou o contrato com a R7 Facilities apenas seis dias após a operação, decisão tomada pelo então diretor-geral Rafael Vitale na véspera do fim de seu mandato. Sete meses depois, em agosto, a agência abriu processo para contratar uma nova fornecedora.

Na justificativa para a mudança, a ANTT apontou "uma série de contratempos" da R7, incluindo "interrupções na prestação de serviços, ausência de pagamento aos trabalhadores contratados e atrasos no pagamento dos benefícios". A agência destacou a "incapacidade de a empresa manter a prestação de serviços ao longo do tempo sem falhar no cumprimento das suas obrigações trabalhistas e previdenciárias".

Em outubro, após licitação, a ANTT contratou a Esplanada Serviços Terceirizados, também alvo da Operação Dissímulo por suspeita de integrar o mesmo grupo supostamente controlado por Tabanez. Em outubro daquele ano, a CGU informou que a Esplanada tornou-se alvo de Processo de Apuração de Responsabilidade.

O novo contrato foi assinado por Guilherme Theo Sampaio, atual diretor-geral da ANTT e aliado do antecessor Rafael Vitale, responsável pela renovação anterior com a R7.

O contrato inicial com a Esplanada, assinado em 13 de outubro, teve valor de R$ 29,2 milhões anuais, em comparação aos R$ 25,7 milhões do antigo acordo com a R7. Apenas um mês depois, em 14 de novembro, o contrato sofreu primeira alteração, com aumento de 16% na quantidade de terceirizados (de 189 para 220) e elevação do valor para R$ 34,5 milhões.

Novas mudanças ocorreram sucessivamente. Em novembro, ampliaram-se significativamente os deslocamentos aéreos dos funcionários: de um deslocamento mensal previsto inicialmente para dez viagens ao mês, além de aumento nas diárias. Em março, nova alteração incorporou mais dez profissionais, totalizando 230 terceirizados.

Com todas as alterações implementadas, o contrato atingiu custo anual de R$ 38,1 milhões, representando diferença de 30,2% em relação ao valor originalmente contratado em outubro. A média gasta anualmente por terceirizado subiu de R$ 143.458,99 no contrato anterior para R$ 165.500, um aumento de 15,4%.

A ANTT negou irregularidades em resposta ao questionamento da coluna. Segundo a agência, a contratação observou integralmente a legislação aplicável, a empresa apresentou toda documentação exigida e não possuía impedimento legal. A ANTT afirmou que as consultas realizadas em sistemas oficiais não identificaram restrições à contratação.

Quanto aos valores, a agência sustentou que a comparação entre o montante original e o atual parte de "premissa incorreta", argumentando que a diferença abarca "instrumentos jurídicos distintos previstos em lei", incluindo reajustes e repactuações obrigatórios aplicáveis a contratos de prestação de serviços com dedicação exclusiva de mão de obra.

A ANTT declarou que os acréscimos observaram limites estabelecidos na legislação vigente, negando qualquer irregularidade na contratação ou execução contratual.

0 Comentários

Faça um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados* *

Veja Também