- Pela Redação
- 29/05/2023
Com a aproximação do início da Copa do Mundo, Cuiabá respira o clima festivo das competições internacionais. Casarões decorados com bandeiras, ruas pintadas e uma atmosfera de celebração tomam conta da cidade, refletindo a paixão que os brasileiros cultivam pela Seleção e pelo futebol.
A prática de pintar as vias urbanas durante o período da Copa representa uma tradição profundamente enraizada na cultura brasileira, passando de geração em geração. No bairro CPA I, um movimento comunitário ganhou força quando moradores se mobilizaram para transformar as ruas em verdadeiras telas de arte, repletas de bandeiras, símbolos regionais e homenagens ao time nacional.
O resgate dessa tradição foi possível graças ao trabalho coletivo de pessoas de diferentes faixas etárias, que se dedicaram a embelezar o bairro enquanto fortalecem os laços comunitários. As decorações não apenas melhoram a paisagem urbana, mas também potencializam o entusiasmo gerado pela competição em todo o país.
Uma figura central na história dessa comunidade foi Vó Maria, moradora antiga conhecida por mobilizar a vizinhança para as decorações festivas. Após seu falecimento há mais de dez anos, a tradição perdeu momentum e quase desapareceu completamente do bairro.
Leonice dos Anjos Santana, aposentada de 71 anos que reside no CPA I há 47 anos, assumiu o papel de reunificadora da comunidade e foi responsável por reavivar a celebração. Embora não seja apaixonada por futebol, ela encontra na competição um catalisador para a união entre os vizinhos. "Não sou muito fã de futebol, mas amo a energia coletiva que ele proporciona. É quando todos os brasileiros se juntam de verdade, e isso me toca profundamente. Por isso vou assistir aos jogos, porque é a alegria compartilhada que nos faz vibrar", comenta.
Para Leonice, manter viva essa tradição também significa preservar o legado de Vó Maria e o sentimento de solidariedade que ela ajudou a cultivar no bairro. O resultado dos esforços coletivos transformou as ruas do CPA I em um espetáculo de cores, reforçando a harmonia entre os moradores.
"Sempre fomos uma comunidade muito unida, sem conflitos ou desentendimentos entre nós. A Copa chegou para intensificar ainda mais esse espírito e ressuscitar algo que já estava em nossas raízes", ressalta a moradora.
A organização das pinturas envolveu uma vaquinha comunitária para arcar com os custos dos materiais necessários. Diversos vizinhos também se dedicaram a confeccionar suas próprias bandeirinhas para contribuir com a decoração das vias.
Os planos para a comunidade vão além das pinturas. Os moradores planejam instalar telões para acompanhar em conjunto a estreia da Seleção Brasileira, marcada para o sábado. O evento contará com a participação de toda a comunidade e será seguido por um grande churrasco.
"Fui casa por casa convidando todos. Todos aceitaram participar e contribuir. Até as crianças ajudaram nas pinturas. Foram momentos muito especiais", relembra Leonice com satisfação.
O trabalho artístico foi desenvolvido pelo pintor e artista plástico Ademir de Melo Carvalho, responsável pela criação dos desenhos que agora adornam as vias do bairro. Seu objetivo foi materializar o espírito brasileiro em cada traço e cor.
"Sou o artista que executou os desenhos, mas foram todos os moradores que conceberam e aprovaram essa iniciativa. É um trabalho genuinamente coletivo. Desde 2014 essa prática havia desaparecido, e agora os moradores voltaram a se unir para resgatá-la", explica Ademir.
A tradição de embelezar as ruas volta a ganhar visibilidade a cada Copa do Mundo, embora tenha se tornado discreta nas últimas edições. Dalva Neves, aposentada de 71 anos, testemunha da história do bairro, recorda dos tempos em que essas celebrações eram mais frequentes e intensas.
"Nos tempos antigos também fazíamos assim. Pintávamos e decorávamos tudo, depois nos reuníamos na minha casa para saborear um bolo caseiro. Todos os vizinhos compareciam", reminisce Dalva.
No entanto, existe uma preocupação que assombra a comunidade. A Prefeitura de Cuiabá estabeleceu que todas as pinturas das ruas devem ser removidas após o encerramento da Copa do Mundo, gerando ansiedade entre os moradores.
"Recebemos um prazo de 30 dias para fazer a limpeza, mas ainda não temos clareza sobre como proceder. A tinta é nossa, fomos nós que aplicamos nas ruas. Estamos buscando alternativas, mas gostaríamos muito de preservar essas pinturas aqui", lamenta Dalva.
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