- Pela Redação
- 29/05/2023
Os pré-candidatos ao governo de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) protagonizaram neste domingo (9) na emissora Band o primeiro debate televisivo do primeiro turno, em um evento que já apresentava características típicas de um segundo turno.
Sem a participação de outros candidatos com representação significativa no Congresso Nacional, o encontro foi marcado pela troca de argumentos baseados em dados técnicos e sem ataques diretos à pessoa, além da disputa por narrativas sobre a performance dos governos estadual e federal. O debate também abordeu questões relevantes como o impacto das tarifas comerciais norte-americanas e o combate ao crime organizado.
O programa foi organizado em três blocos distintos, contendo perguntas formuladas pelo mediador e por jornalistas, além de momentos de confrontação direta entre os concorrentes.
Haddad conduziu sua estratégia ressaltando as iniciativas do governo federal em obras e ações implementadas em São Paulo que, na sua avaliação, foram omitidas pelo governador Tarcísio. O político do PT também tentou conectar o governador à figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), numa tentativa de ampliar a discussão para o nível nacional. Tarcísio, que inicialmente rejeitava esse tom de confronto nacional, posteriormente adotou a mesma estratégia e passou a fazer elogios ao seu padrinho político no segundo bloco, simultaneamente criticando a gestão Lula.
O mediador iniciou questionando sobre o desempenho da educação paulista após divulgação dos resultados do Ideb. O apresentador contextualizou que o estado se encontra próximo da média nacional em relação ao ensino médio e avançou menos que a média do país, citando estados como Piauí e Pará, com menor PIB, que obtiveram resultados superiores. Mencionou ainda exemplos internacionais como Chile, Coreia do Sul e Vietnã, e o município de Inajá, no interior do Ceará, que teria alcançado nota 9,8 no índice. A questão solicitava propostas para que São Paulo se tornasse referência educacional nos próximos quatro anos.
Tarcísio de Freitas apresentou avanços de sua administração na alfabetização no período apropriado e elencou como focos futuros o Pacto pela Matemática, a educação voltada para tecnologia com inteligência artificial, formação permanente de professores, expansão das escolas com jornada integral, ensino profissionalizante e recuperação do aprendizado. Conforme o governador, o estado incrementou em 150 mil o volume de matrículas e em quase 500 unidades escolares de tempo integral. Também apresentou programa de bolsa-estágio para alunos do ensino médio e iniciativas de acompanhamento individual.
Fernando Haddad classificou como grave a realidade da educação paulista. Afirmou que o estado desceu da terceira colocação em qualidade do ensino médio e argumentou que Piauí, Ceará e Pernambuco ultrapassaram São Paulo. Também destacou que São Paulo fica abaixo da média nacional na alfabetização infantil, com 61% frente aos 66% da média brasileira. Haddad criticou a metodologia pedagógica adotada pelo governo estadual, denunciando a substituição do livro didático e do docente por plataformas digitais, e questionou a infraestrutura de conectividade das escolas. Para ele, seria necessário ampliar o suporte aos educadores e potencializar o uso adequado de tecnologia.
No primeiro embate direto, Tarcísio respondeu afirmando que a métrica deveria incluir também o ensino profissionalizante. De acordo com ele, São Paulo elevou de 12% para 42% o percentual de alunos no ensino médio em formação dupla, integrando ensino regular e educação profissional. Considerando os estudantes da educação profissional na avaliação, reiterou que a pontuação do estado chegaria a 4,5 e que São Paulo manteria sua posição nacional, a despeito do desenvolvimento geral do Brasil. Voltou a mencionar programas de recuperação do aprendizado e de acompanhamento individual.
Durante o primeiro embate direto, Tarcísio de Freitas começou ressaltando os êxitos de sua gestão no âmbito da segurança e mencionou a atuação colaborativa do estado com a administração municipal de São Paulo, o Ministério Público, o Poder Judiciário e a comunidade no enfrentamento à criminalidade na região central da capital. Destacou ações na Cracolândia, englobando o combate ao narcotráfico, a disponibilização de 700 leitos para desintoxicação e de 44 unidades de reabilitação, além de políticas habitacionais e de assistência. Conforme o governador, a integração entre operações investigativas e inteligência policial possibilitou compreender a estrutura do crime local.
Respondendo aos apontamentos de Haddad sobre violência feminina, Tarcísio sustentou que São Paulo apresenta índices de feminicídio e óbitos violentos de mulheres inferiores à média nacional. Apresentou estatísticas do Ministério da Justiça e informou que o estado fortaleceu a estrutura de proteção, contando com 144 Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher e 235 salas DDM em funcionamento integral. Também mencionou o protocolo Não Se Cale e o Espaço Lilás, implantado nos quartéis da Polícia Militar, com policiais mulheres especializadas para lidar com denúncias.
Tarcísio complementou informando que o estado procura os agressores e os encaminha para grupos de reflexão e que os indicadores de violência feminina demonstravam redução pelo segundo mês sucessivo. Argumentou que as iniciativas comprovariam que as políticas de prevenção estavam surtindo efeito.
Haddad, inversamente, concentrou suas críticas principalmente em violência contra mulheres e crimes motivados por racismo. Declarou que São Paulo passaria por uma "crise de crimes contra a mulher", abrangendo feminicídio, perseguição, agressão física e constrangimento sexual, baseando-se em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Também mencionou crescimento dos crimes raciais no estado e interpelou Tarcísio sobre que medidas adotaria em uma possível reeleição.
Na tréplica, Haddad questionou as informações de Tarcísio e relatou que o feminicídio teria aumentado 10% em São Paulo no primeiro semestre daquele período, enquanto o país registraria decréscimo de 2,5%. "Portanto, o país funciona", asseverou.
Em outro instante, Haddad também salientou os assaltos de smartphones. Informou que a capital paulista responderia por expressivo volume dos roubos de celulares do país e criticou as escolhas da administração em relação à inovação, argumentando que o estado possuiria capacidade orçamentária para investir, porém careça de adquirir os equipamentos apropriados.
O governador igualmente resguardou a qualificação do seu secretariado e, questionado sobre o ex-titular da Secretaria de Segurança Pública Guilherme Derrite, assegurou que sua administração produziu resultados concretos. No tocante ao combate ao crime estruturado, Tarcísio replicou Haddad e informou que a Operação Carbono Oculto foi iniciada em São Paulo, envolvendo a corporação estadual. Reiterou que o Ministério Público integrou as apurações através do Gaeco.
Haddad, reciprocamente, concentrou as censuras nas decisões de Tarcísio para o setor de segurança e no relacionamento do estado com a esfera federal. O candidato manifestou que há descontentamento da população paulista com as escolhas do governador e mencionou o afastamento do chefe-geral da Polícia Militar por alegados relacionamentos com o PCC. Também teceu críticas à conduta em demais setores, compreendendo educação e saúde.
Ao tratar do combate à criminalidade organizada, Haddad ressaltou a contribuição do executivo federal e da Administração Tributária na Operação Carbono Oculto. Conforme ele, a operação foi identificada por especialista como o maior empreendimento de enfrentamento ao crime organizado já realizado. Haddad igualmente criticou o que julga ser insuficiente reconhecimento, por Tarcísio, das cooperações da esfera federal com São Paulo.
No segundo bloco, o evento enfocou o túnel Santos-Guarujá, as imposições tarifárias norte-americanas sobre itens brasileiros, a agricultura comercial e o combate ao predomínio territorial de organizações criminosas. O embate mais intenso emergiu durante discussão sobre segurança, quando Tarcísio aludiu a uma foto de Haddad acompanhado de uma mulher por ele identificada como traficante. Haddad reagiu, afirmou que Tarcísio conhecia o tráfico tanto quanto ele próprio e exigiu que o governador "baixasse essa bola".
Na abertura do bloco, Tarcísio e Haddad concorreram pelo protagonismo acerca do túnel Santos-Guarujá. Tarcísio sublinhava a cooperação entre as gestões estadual e federal e informou que os recursos de ambas as esferas já estavam transferidos. Também acentuou que o estado ocupou posição fundamental para viabilizar a concessão e reiterou que, embora o investimento seja partilhado entre União e estado, a participação estadual corresponde a 84% do valor. Haddad, por seu turno, ressaltou os gastos e financiamentos do governo federal em São Paulo e apontou que o estado usufruiu R$ 13,7 bilhões em linhas de financiamento do BNDES. Também mencionou serviços e programas que, em sua análise, dependem de aportes federais.
Na discussão sobre as imposições tarifárias norte-americanas sobre produtos brasileiros, Haddad sustentou uma estratégia nacional coordenada e afirmou que a gestão federal estabeleceu o Plano Brasil Soberano para fortalecer as corporações e abrir novos mercados. Tarcísio ressaltou que as imposições afetam principalmente segmentos manufatureiros de São Paulo e apresentou como ações estaduais a antecipação do retorno de créditos vencidos de ICMS para corporações exportadoras e a disponibilização de linhas de financiamento com prazo expandido de carência e taxas vantajosas. Haddad censura a recusa do estado em participar da reestruturação da dívida oferecida pela gestão federal e sustentou que a medida teria ampliado a robustez orçamentária paulista.
Relativamente ao agronegócio, Tarcísio elencou programas estaduais de crédito, seguro de colheita, irrigação, maquinário e insumos e mencionou que o estado preservou R$ 1,2 bilhão em recursos do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap) ao longo da sua administração. Haddad apoiou o reforço do seguro agrícola e a revitalização dos órgãos estaduais de pesquisa. Tarcísio respondeu mencionando a elevação salarial dos pesquisadores, a promoção da carreira e a execução de seleções públicas.
O instante mais carregado adveio na discussão sobre o predomínio espacial de corporações criminosas. Haddad sugeriu a constituição de um comitê institucional de segurança pública, encabeçado pelo governador e integrando as corporações policiais estaduais, Ministério Público, Polícia Federal, Administração Tributária e Coaf. Defendeu maior articulação das capacidades informacionais dos órgãos e assegurou que o enfrentamento ao crime estruturado deve atingir sua musculatura financeira.
Tarcísio replicou salientando a ampliação do contingente policial e ações de inteligência e enfraquecimento financeiro da criminalidade organizada. Também mencionou operações em Paraisópolis e na Baixada Santista e assegurou que sua gestão demonstrou disposição para confrontar agrupamentos criminosos em segmentos como combustíveis, hospedarias, revendedoras de veículos importados e logística.
Posteriormente, em um instante ligeiramente mais acalorado, Tarcísio trouxe uma imagem de Haddad ao lado de uma mulher que, conforme ele, encabeçava o tráfico na comunidade do Moinho. Haddad replicou e declarou: "Vou saber quem é do tráfico. Você acha que eu conheço o tráfico como você." Sequencialmente, indagou: "Se só você sabia que ela era traficante, porque você não foi lá prender" e ressalvou que, se houvesse conhecimento da situação, teria procedido à prisão. Haddad concluiu sua reação declarando: "Então você respeita, baixa essa bola." Voltou a questionar a administração de segurança por Tarcísio e asseverou que "apenas a dureza não vai funcionar", enfatizando o combate ao substrato financeiro do crime organizado.
No terceiro bloco, Haddad atacou Tarcísio por sustentar as privatizações e exigiu um parecer crítico sobre a venda da Sabesp, as concessões de transporte e a implementação do pagamento eletrônico de pedágio. Respondendo, Tarcísio apresentou obras e investimentos da gestão estadual em abastecimento de água, transportes e educação. Haddad posteriormente caracterizou o governador como "decoreba" e apontou que ele empregava nomes de bairros, municípios e números buscando intimidá-lo e contornar a pergunta realizada.
"Tarcísio, você é meio decoreba. Concurseiro que joga um monte de números pensamos que me intimida. Você precisa fazer uma avaliação crítica das privatizações. Um trem explodiu duas semanas atrás", proferiu.
O confronto avançou para os investimentos estaduais, a participação da esfera federal em obras e ações em São Paulo, a área de saúde e a denominada tabela SUS Paulista. Haddad questionou os desempenhos da gestão estadual e utilizou informações oficiais para contestar os números citados por Tarcísio. O governador rebateu, expôs demais indicadores e sustentou que São Paulo alcança recordes em segmentos como procedimentos cirúrgicos, habitação e investimentos em infraestrutura. Finalizando o bloco, ambos reiteraram divergências sobre os gastos da gestão Tarcísio e o legado de administrações anteriores.
Nas mensagens finais, Tarcísio defendeu os resultados de sua administração e requereu ao eleitoral uma oportunidade adicional para permanecer na gestão. Ressaltou avanços em segurança, educação, saúde, habitação e infraestrutura e comprometeu-se a ampliar investimentos, o transporte ferroviário e a utilização de inteligência artificial nos serviços estatais.
Haddad, diferentemente, sustentou que Tarcísio descumpriu compromissos e criticou o fato de o governador apresentar obras ainda em construção como êxitos de sua gestão. O integrante do PT também defendeu o legado de sua passagem pela administração municipal de São Paulo, asserindo que hospitais e demais obras iniciadas em sua administração foram terminadas posteriormente. Ao questionar o prefeito Ricardo Nunes, correligionário de Tarcísio, declarou que o chefe municipal possui R$ 80 bilhões em caixa, porém estaria contraindo débitos de R$ 50 bilhões, além de formular uma acusação abrangendo uma transação de Wi-Fi e o PCC.
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