- Pela Redação
- 29/05/2023
A Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou e convocou para depoimento o streamer conhecido como GH Rell RJ, acusado pelo ator João Victor Gonçalves de homofobia após uma abordagem hostil durante sua chegada ao Rock in Rio na noite de sexta-feira (4). O rapaz foi identificado como Jean Almeida Hilário, 19 anos, residente em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e será ouvido na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).
Segundo sua defesa e vídeos divulgados, Jean pediu desculpas pela abordagem, mas negou que tenha havido discriminação de orientação sexual. João Victor, de 24 anos, que interpreta Mau Mau na novela "Quem Ama Cuida", também será chamado para prestar esclarecimentos no caso. Os investigadores examinarão se houve crime de homofobia e, conforme os depoimentos, analisarão a acusação de racismo que o streamer fez contra o ator após a repercussão do episódio.
A Polícia Civil informou que cada fato será analisado individualmente e que os depoimentos devem ajudar a esclarecer o contexto tanto da abordagem quanto das manifestações posteriores dos dois envolvidos.
O incidente ocorreu em frente ao Parque dos Atletas, no entorno da Cidade do Rock, na Barra Olímpica, zona sudoeste carioca, e foi transmitido ao vivo pela plataforma Kick, concorrente da Twitch. Horas depois do episódio, GH foi banido da plataforma.
Durante a transmissão, Jean aparecia acompanhado por pelo menos dois amigos quando se aproximou de João Victor. Em dado momento, integrantes do grupo fizeram comentários depreciativos sobre a aparência e as roupas do ator. "C..., que é isso! Cara horroroso. Cara meteu um tomate", disse um deles, referindo-se à calça vermelha usada pelo artista.
O grupo continuou seguindo o ator por alguns segundos. João Victor, visivelmente desconfortável, apressou o passo para se afastar. O trecho foi posteriormente recortado e compartilhado nas redes sociais, gerando críticas massivas à atitude do streamer.
Não ficou claro durante a transmissão se o streamer e seus amigos sabiam que o homem abordado era o ator João Victor Gonçalves.
Após o vídeo repercutir nas redes sociais, João Victor se pronunciou, classificando o ocorrido como homofobia e revelando que tinha medo de ser roubado durante a abordagem. "Somos mais fortes que qualquer coisa... Impunes não vão ficar, homofobia é crime. Isso é um retrato. Meu medo de ser roubado era maior. Homofobia não é entretenimento", afirmou o ator.
Jean inicialmente pediu desculpas "caso tivesse cometido um erro". Posteriormente, voltou a se expressar sobre o episódio, negando qualquer homofobia e acusando João Victor de racismo. O streamer questionou a declaração do ator sobre o receio de ser assaltado e associou a fala à cor da pele dele.
"Como que eu vou te roubar, irmão, num evento onde tinha muita segurança? [...] Você falou que tava com medo de ser roubado. Por que você tava com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?", questionou GH no vídeo.
No mesmo vídeo, o streamer reafirmou que não havia feito comentários sobre a orientação sexual de João Victor, mantendo suas críticas focadas apenas na roupa usada pelo artista.
Além de Jean Almeida, João Victor será convocado pela Delegacia de Atendimento ao Turista para prestar esclarecimentos sobre os fatos. Conforme apurado, a investigação analisará separadamente as manifestações de ambos os envolvidos. A polícia investigará se houve crime de homofobia nas falas do streamer e, a depender dos depoimentos, poderá também examinar a acusação de racismo feita por GH contra o ator.
João Victor divulgou nota assinada pelos advogados Gustavo Polido e Andressa Knapp rebatendo a acusação de GH. O texto argumenta que a manifestação do ator sobre o medo de assalto não possui qualquer conotação discriminatória. "Trata-se de reação legítima de autoproteção, plenamente justificável diante do contexto fático: ausência de segurança no local, superioridade numérica dos agressores (quatro contra um) e a natureza intimidatória da abordagem. Não há nexo entre o receio manifestado e qualquer elemento de cunho racial", diz a nota.
Os advogados afirmam que a alegação de GH "não encontra qualquer amparo nos fatos ou nas declarações efetivamente proferidas por João Victor". Eles também esclarecem que manifestações racistas de terceiros, inclusive seguidores do ator, não podem ser atribuídas a João Victor.
A nota ressalta ainda que "o deboche público motivado pela não conformidade da vestimenta com padrões normativos de gênero, exposto e amplificado por meio de transmissão ao vivo, constitui ato discriminatório grave" e que "o ato discriminatório foi praticado deliberadamente como estratégia de engajamento e geração de conteúdo, em benefício próprio e às custas da exposição pública não consentida da vítima".
"Reafirma-se que João Victor Gonçalves figura, nestes fatos, exclusivamente na condição de vítima", conclui a declaração.
A defesa de Jean Almeida Hilário emitiu nota confirmando que o streamer reconhece que o tom utilizado durante a transmissão foi inadequado e reitera o pedido de desculpas a João Victor. Segundo os advogados, GH expressa arrependimento e admite que a abordagem "não foi apropriada".
Porém, a defesa negou categoricamente que tenha ocorrido homofobia. Conforme a nota, os comentários de GH foram direcionados exclusivamente à roupa usada pelo ator e em nenhum momento fizeram menção à orientação sexual dele.
Os advogados afirmaram que o streamer está à disposição das autoridades e confia que a investigação demonstrará "a ausência de qualquer ato discriminatório". Notavelmente, a nota não repete as acusações de racismo que Jean havia feito em vídeo contra o ator.
Neste domingo (6), João Victor retornou à Cidade do Rock e compartilhou vídeo se divertindo e cantando "Pro dia nascer feliz" durante apresentação do Barão Vermelho. "Mais um dia de @rockinrio - Bora viver!", escreveu o ator ao compartilhar o look escolhido para aproveitar a programação do festival naquele dia.
0 Comentários
Faça um comentário