- Pela Redação
- 29/05/2023
A capital Caracas retoma gradualmente sua rotina após os violentos terremotos que assolaram a Venezuela em 24 de junho. O trânsito normaliza-se, comércios reabrem com horários reduzidos e shoppings, academias e salões retomam operações, porém a situação permanece delicada em várias regiões.
O regresso aos escritórios ocorre de forma parcial, já que muitos edifícios sofreram danos estruturais significativos. As empresas precisam transferir temporariamente suas operações enquanto avaliam a segurança de suas instalações. Nas residências, o processo de retorno é ainda mais lento, com restrições de acesso em diversas áreas enquanto engenheiros inspecionam estruturas danificadas.
As autoridades adotam um sistema de sinalização para classificar quais imóveis podem ser ocupados. Alguns edifícios recebem autorização apenas para reparos menores, como vedação de rachaduras e ajustes de acabamento, enquanto obras maiores aguardam avaliações técnicas detalhadas. O receio é evidente também nos elevadores: muitos moradores preferem utilizar escadas por temor de novos tremores.
A situação em La Guaira, município costeiro localizado a 30 quilômetros de Caracas, revela a verdadeira magnitude da tragédia. Declarada zona de desastre, a região abriga as piores consequências do evento sísmico. Dados do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, apontam 189 edifícios completamente destruídos no país, sendo 158 deles em La Guaira.
Análises de imagens de satélite realizadas pela Universidade Estadual do Oregon indicam aproximadamente 59 mil edificações danificadas ou destruídas em todo o território nacional. As áreas próximas ao aeroporto internacional e a cidade de Caraballeda enfrentam os danos mais críticos.
Mercedes Osuna representa o sofrimento de milhares de famílias deslocadas. Aos 40 anos, mulher que já era mãe solo e trabalhava para a Hidrocapital, agora carrega a responsabilidade de quatro crianças após perder a irmã Olga no colapso do edifício onde residiam. Olga, grávida de gêmeas, faleceu durante os tremores.
Há duas semanas, Mercedes vive em um abrigo com suas duas filhas e seus sobrinhos Damián e María. A situação a pressiona constantemente: "Preciso de uma casa, é muito difícil aqui com os quatro filhos", relata à CNN.
Damián, 13 anos, jogava futebol quando sentiu os primeiros abalos. O impacto foi devastador: "O primeiro tremor me derrubou. Depois veio outro — bum, bum, bum — muito forte. O prédio desabava sobre mim. Tentei correr para a Rua 22, mas não tive tempo, porque o outro edifício também desabava. Corri para a rua", recorda.
Por horas, desconheceu o paradeiro de sua família. Levou um dia inteiro até reencontrar sua tia. Agora lida com a perda irreversível da mãe. "Acho que não vou voltar para casa... Minha mãe se foi", expressa com resignação. O garoto também perdeu seus amigos de infância que se dispersaram, conseguindo notícias apenas de seu melhor colega de infância.
No abrigo, Damián evita falar sobre o terremoto, preferindo jogar futebol com outras crianças. Especialistas orientaram Mercedes que esse comportamento pode ser seu mecanismo natural de enfrentamento do trauma.
María, irmã de Damián com 10 anos, vivenciou o colapso de dentro do apartamento. Estava com a mãe quando o edifício desabou, sobrevivendo porque estava no fundo do cômodo onde uma porta amorteceu o impacto dos destroços sobre ela.
Desde então, a menina questiona incessantemente sobre a mãe, vivencia episódios de ansiedade e assusta-se com qualquer ruído mais elevado. "Qualquer barulho menor... ela ficou traumatizada", relata Mercedes.
Nos abrigos, as famílias recebem alimentação e acompanhamento psicológico. Mercedes reconhece a qualidade do suporte: "Tem sido excelente. Fornecem comida, brincam com as crianças e as apoiam".
A presidente em exercício Delcy Rodríguez anunciou que o governo providenciaria soluções habitacionais antes do encerramento do ano. Entretanto, analistas consultados pela CNN duvidam do cumprimento dessa promessa, considerando a situação econômica complexa do país e as dificuldades para desenvolver projetos imobiliários em curto prazo.
Para Mercedes, o desafio permanece singular: conseguir uma moradia. "Preciso de uma casa, sinceramente... o que realmente preciso é de uma casa para ficar com meus quatro filhos agora".
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