Eleições em SP: Tarifas de Trump viram arma de campanha entre Haddad e Tarcísio

Novo tarifaço de 25% impulsiona debate sobre relações internacionais na disputa pelo governo paulista



Desde abril de 2025, as medidas tarifárias anunciadas por Donald Trump contra o Brasil ganharam espaço no debate eleitoral nacional. No âmbito presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) incorporaram o tema internacional em seus discursos de campanha, em contexto marcado pelo respaldo explícito de setores do governo americano ao candidato bolsonarista.

No cenário estadual paulista, a questão ganha novos contornos. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), ambos na disputa pelo executivo estadual, veem o assunto como ferramenta estratégica para conquistar eleitores preocupados com os impactos econômicos.

Conforme analisa o estrategista político Felipe Soutello, que trabalha com campanhas desde 1986, a inserção recorrente de pautas internacionais nas eleições de 2026 marca uma ruptura com o padrão anterior do cenário político brasileiro.

Eleições 2026

"Isso é uma novidade no cenário eleitoral. Tem governadores brasileiros que se conectaram a esse movimento MAGA, e externalizam sua posição sobre isso. Ficou embaraçoso ter que explicar como apoiaram um caminho político que prejudica o Brasil e sua cadeia industrial", afirma Soutello.

Quando cogitado para a presidência em 2025, Tarcísio utilizou boné de campanha de Trump ao cumprimentar o republicano pela vitória eleitoral, endossando suas declarações em diversas ocasiões, sob pressão do bolsonarismo, ao criticar as negociações então conduzidas pelo governo Lula com Washington.

Tarifaço de Trump traz política externa ao debate eleitoral em SP

Arte/Metrópoles

Naquele período, Tarcísio classificou as medidas tarifárias como uma "oportunidade de negócio" para o Brasil durante evento do Bradesco. Posteriormente, apresentou-se como negociador alternativo contra o anúncio inicial de sobretaxação de 10% em produtos brasileiros, reunindo-se com Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA em Brasília.

Na sequência, cobrou um telefonema direto entre Lula e Trump, sugerindo que as negociações da gestão federal poderiam entregar "alguma vitória" ao presidente americano. "Por que não entregar alguma vitória para ele?", questionou diante de investidores em agosto do ano anterior.

A mudança de posicionamento ocorreu no primeiro semestre deste ano, quando a confirmação do Palácio dos Bandeirantes como sua base para o biênio 2026-2028 afastou definitivamente a possibilidade de chegar ao Planalto. A partir desse momento, Haddad intensificou seus ataques. Qualificou Tarcísio como "submisso" a Trump em entrevista exclusiva ao Metrópoles em abril, provocando reação irritada do governador, que retrucou pedindo para o petista parar de falar "bobagem".

"O que tem a ver o Estado de São Paulo com o Trump? A gente não faz política externa aqui. Ele tem que parar de falar bobagem", questionou Tarcísio em maio, posicionando-se na defesa dos interesses paulistas. Desde o anúncio da sobretaxação de 25% na quarta-feira (15/7), o Palácio dos Bandeirantes mantém silêncio público.

"Como é que o governador de São Paulo vai explicar que manifesta posição favorável ao governo Trump? Tem entrevistas dele sugerindo ceder algo ao governo americano. Ele se meteu na política internacional, e isso tem consequências locais", reforça o analista Soutello.

A oposição estadual aproveita esse histórico crítico. Marina Silva (Rede), pré-candidata ao Senado em São Paulo, resgatou publicamente a imagem do governador com o boné vermelho de campanha Trump. Na última sexta-feira (17/7), afirmou que Tarcísio "tem que se explicar por que botou o chapéu do adversário e por que é amigo de quem é inimigo do povo brasileiro".

No mesmo evento com a ex-ministra do Meio Ambiente, Haddad instou o governador a fazer uma "autocrítica" em relação às suas aproximações com Trump. "Espero que o Tarcísio reavalie sua posição de apoio ao governo dos Estados Unidos", declarou o pré-candidato petista.

Divergências sobre escopo da campanha eleitoral

Conforme integrante da estrutura de pré-campanha de Tarcísio, sob condição de anonimato, a avaliação interna é de que Haddad pretende "nacionalizar a campanha quando não deveria". "O boné não tem conexão com o tarifaço. Qualquer análise política que realizamos mostra ausência de vínculo entre a medida tarifária e o governador Tarcísio, ainda que ele apoie o Flávio", argumentou.

Pesquisa recente Genial/Quaest revelou que mais da metade da população brasileira concorda com a interpretação do presidente Lula de que uma reunião de Flávio Bolsonaro com Trump teria motivado a nova rodada de tarifação. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) chegou a celebrar publicamente a medida em 9 de julho de 2025, três dias após os Estados Unidos abrirem investigação comercial contra o Brasil. "Se houver o cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado", expressou na ocasião.

O entorno de Haddad sustenta que a política externa pertence legitimamente ao debate campestre, pois São Paulo é o estado mais vulnerável ao novo tarifaço. Destacam que realizou almoço fechado na sexta-feira (17/7) com representantes da indústria sucroenergética e que atuou diligentemente, quando ministro da Fazenda, para viabilizar a aprovação da medida provisória que instituiu o Plano Brasil Soberano, mecanismo de proteção da economia brasileira contra barreiras comerciais intempestivas, incluindo financiamentos ao setor produtivo e linhas de crédito específicas para exportadores.

De acordo com a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), o novo tarifaço impacta em US$ 11 bilhões as exportações industriais e do agronegócio, posicionando o Brasil entre os países com acesso mais restritivo ao mercado norte-americano. As regiões paulistas mais afetadas incluem Sorocaba, Campinas, Franca, Birigui, Grande ABC e Vale do Paraíba.

Cálculos da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) indicam que São Paulo, enquanto unidade federativa mais prejudicada, pode deixar de movimentar aproximadamente US$ 3 bilhões, conforme comunicado pelo presidente da entidade, Laudemir Müller, na sexta-feira (17/7).

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