- Pela Redação
- 29/05/2023
"A tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa." A declaração do presidente Xi Jinping, reiterada há mais de uma década, sintetiza o direcionamento central da política de segurança alimentar chinesa: aumentar a produção doméstica de alimentos e diminuir a vulnerabilidade às importações.

Esta orientação integra as prioridades do 15º Plano Quinquenal da China, divulgado no início do ano para 2026-2030. O documento estabelece metas ambiciosas para ampliar a produção de produtos em que o Brasil é hoje um dos principais fornecedores: soja, milho e proteína animal.
As restrições às importações de carne bovina implementadas pela China em 2025, afetando diversos países exportadores incluindo o Brasil, exemplificam essa mudança estratégica. O governo chinês trabalha para elevar sua autossuficiência em carne bovina e ovina de 70% para 85%.
Como o Brasil se posiciona neste novo contexto? Consultores e especialistas ouvidos indicam que a situação não representa uma ruptura radical nem uma redução abrupta das compras chinesas, porém exige reposicionamento estratégico das empresas brasileiras.
"O desafio dos próximos anos não é aumentar volume, é entregar qualidade superior. Isso significa agregação de valor, transição de commodities para produtos premium, itens processados e marcas consolidadas. Além disso, é fundamental diversificar para não depender unicamente de um comprador", explica Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China.
Ele complementa: "Permaneceremos relevantes por uma razão que até a China reconhece: ela pode alcançar excelência em engenharia, mas não consegue criar terra e água."
Apesar de sua extensão territorial superior à do Brasil, a China possui área agrícola limitada. Vasto conjunto de regiões montanhosas, áridas e desérticas compõem o território chinês. Adicionalmente, o país detém menos de 5% da água doce do planeta.
Consequentemente, o avanço dos objetivos chineses dependerá fundamentalmente do aumento da produtividade—conseguir maiores quantidades em áreas iguais, apoiado por inovações tecnológicas como melhoramento genético de culturas e equipamentos sofisticados.
Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e consultora da Vallya Associados, enfatiza que não se deve minimizar a capacidade chinesa de atingir suas metas. "Acompanho política pública chinesa há anos. Quando a China assume um compromisso e aloca seus conhecimentos em tecnologia, educação e recursos financeiros, consegue resultados consistentes", afirma.
Metas-chave do Plano de Segurança Alimentar Chinês:
• Elevar capacidade anual de produção de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030 (colheita anterior: pouco menos de 715 milhões);
• Aumentar contribuição de ciência e tecnologia para agricultura de 64% para 67%;
• Reduzir participação do farelo de soja na ração animal de aproximadamente 14% para menos de 10% até 2030;
• Produzir no mínimo 95% dos grãos principais (arroz, trigo) domesticamente; alcançar 85% em carnes bovina/ovina e 70% em laticínios.
Santana destaca que a China já atingiu a meta de autossuficiência em grãos básicos como arroz e trigo, com produção que supera em mais de 100% a demanda interna, conforme dados do Escritório Nacional de Estatística chinês.
Contudo, o país ainda permanece aquém das metas em outros alimentos. Para carnes bovina e ovina, supre 70% da demanda local. Na produção leiteira, esse índice é de 62%.
Santana pontua que o foco da estratégia chinesa concentra-se principalmente em grãos para alimentação humana, produtos que o Brasil praticamente não exporta para o mercado chinês.
"O que o Brasil comercializa é precisamente o que a China não consegue ser autossuficiente: soja e carne", observa.
Em 2025, a China adquiriu um volume recorde de quase 112 milhões de toneladas de soja, sendo que mais de 70% originou-se do Brasil. A produção chinesa atende apenas cerca de 20% da demanda interna.
A China, porém, sente-se "incomodada" por essa dependência, segundo Wachholz. Por isso, intensifica investimentos em tecnologia e melhoramento genético, inclusive em sementes transgênicas—tema historicamente sensível no país. O propósito é expandir produção mantendo a área plantada e consumo hídrico constantes.
No segmento de grãos, o Brasil já experimentou o impacto nas exportações de milho. Em 2025, a China registrou safra recorde, reduzindo importações do cereal de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025.
Como consequência, o valor das exportações brasileiras de milho para a China caiu 20,8% em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura.
O mercado de carne bovina também sente esse movimento, com a implementação de cotas para Brasil e outros exportadores.
Em janeiro de 2026, a China estabeleceu sobretaxa de 55% sobre carnes brasileiras que extrapolem 1,1 milhão de toneladas. Em julho, esse teto já havia sido atingido, segundo levantamento do consultor Fernando Enrique Iglesias da Safras & Mercado.
"A cota nasceu de investigação de salvaguarda, e o próprio Ministério do Comércio chinês foi claro ao justificá-la: importações de carne prejudicavam a indústria local, e a medida estabilizaria o rebanho, oferecendo tempo aos produtores chineses se reorganizarem", afirma Santana.
Porém, para o especialista, essa política encontrará limitações. "A China produz aproximadamente 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome perto de 11 ou 12 milhões. Esse déficit é estrutural, e a OCDE projeta que chegará próximo a 4 milhões de toneladas anuais até 2032", explica.
"Portanto, a cota administra o ritmo das importações e protege produtores locais, porém não elimina a dependência. Representa um escudo temporário, não uma porta que encerra."
Estratégias para o Brasil Acompanhar a Transformação
Uma alternativa relevante é diversificar destinos de exportação. "Apenas em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, sendo quase 20 para carne bovina", menciona Santana.
Contudo, substitui apenas parcialmente o mercado chinês, que adquire metade de toda a carne bovina exportada pelo Brasil.
Outra estratégia é fortalecer a presença de empresas brasileiras na China para monitorar mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais mais rapidamente.
Segundo Wachholz, a presença do setor privado brasileiro no país asiático permanece inferior à relevância desse mercado para o agronegócio nacional.
A especialista identifica novas oportunidades, como na produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e navegação marítima, setores que ampliarão demanda por matérias-primas agrícolas nos próximos anos.
Nesse contexto, soja e milho podem acessar mercados de maior valor agregado, reduzindo a dependência exclusiva de exportação de grãos.
Os especialistas ressaltam que a nova estratégia chinesa está distante de provocar desconexão entre os países.
"Um sinal mais eloquente que qualquer discurso: chineses investem no Brasil para assegurar fornecimento alimentar. A COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, adquiriu locomotivas e vagões, e existe memorando para estudar ferrovia bioceânica conectando Centro-Oeste ao Pacífico", afirma Santana.
"Ninguém investe em infraestrutura de longo prazo em fornecedor que pretende abandonar. O intercâmbio agrícola entre os dois países já ultrapassa US$ 100 bilhões anuais. O que se transforma é o nível de exigência, não a relevância", conclui."
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